sexta-feira, 29 de março de 2013

CARTA DE SILVA PENEDA AO MINISTRO DAS FINANÇAS ALEMÃO

Para quem não teve oportunidade de ler, aí vai a carta de Sikva Peneda ao ministro das finanças alemão , publicada ontem no Público:


O Senhor Ministro afirmou que há países da União Europeia que têm inveja da Alemanha. A primeira observação que quero fazer, Senhor Ministro, é que as relações entre Estados não se regem por sentimentos da natureza que referiu. As relações entre Estados pautam-se por interesses.

Queria dizer-lhe também, Senhor Ministro, que comparar a atitude de alguns Estados a miúdos que na escola têm inveja dos melhores alunos é, no mínimo, ofensivo para milhões de europeus que têm feito sacrifícios brutais nos últimos anos, com redução muito significativa do seu poder de compra, que sofrem com uma recessão económica que já conduziu ao encerramento de muitas empresas, a volumes de desemprego inaceitáveis e a uma perda de esperança no futuro.
E acrescentou o Senhor Ministro: “Os outros países sabem muito bem que assumimos as nossas responsabilidades…”. Fiquei a saber que a nova forma de qualificar o conceito de poder é chamar-lhe responsabilidade!
E disse mais o Senhor Ministro: “Cada um tem de pôr o seu orçamento em ordem, cada um tem de ser economicamente competitivo”. A este respeito gostaria de o informar que já tínhamos percebido, estamos a fazê-lo com muito sacrifício, sem tergiversar e segundo as regras que foram impostas.
Quando o ministro das Finanças do mais poderoso Estado da União Europeia faz afirmações deste jaez, passa a ser um dos responsáveis para que o projeto europeu esteja cada vez mais perto do fim.
Passo a explicar. O grande objetivo do projeto europeu foi garantir a paz na Europa e como escreveu um antigo e muito prestigiado deputado europeu, Francisco Lucas Pires, “… essa paz não foi conquistada pelas armas mas sim através de uma atitude de vontade e inteligência e não como um produto de uma simples necessidade ou automatismo…”. A paz e a prosperidade na Europa só foram possíveis porque no desenvolvimento do projeto político de integração europeia teve-se em conta a grande diversidade de interesses, as diferentes culturas e tradições e os diferentes olhares sobre o mundo. Procurou-se sempre conjugar todas essas variedades, tons e diferenças dos Estados-membros numa matriz de valores comuns.
Esta declaração de Vossa Excelência põe tudo isto em causa, ao apontar o sentimento da inveja como o determinante nas relações entre Estados-membros da União Europeia. Quero dizer-lhe, Senhor Ministro, que o sentimento da inveja anda normalmente associado a uma cultura de confrontação e não tem nada a ver com uma outra cultura, a de cooperação.
Com esta declaração, Vossa Excelência quer de forma subtil remeter para outros Estados a responsabilidade pela confrontação que se anuncia. Essa atitude é revoltante, inaceitável e deve ser denunciada.
A declaração de Vossa Excelência, para além de revelar uma grande ironia, própria dos que se sentem superiores aos outros, não é de todo compatível com a cultura de compromisso que tem sido a matriz essencial da construção do sonho europeu dos últimos 60 anos.
Vossa Excelência, ao expressar-se da forma como o fez, identificando a inveja de outros Estados-membros perante o “sucesso” da Alemanha, está de forma objetiva a contribuir para desvalorizar e até aniquilar todos os progressos feitos na Europa com vista à consolidação da paz e da prosperidade, em liberdade e em solidariedade. Com esta declaração, Vossa Excelência mostra que o espírito europeu para si já não existe.
Eu sei que a unificação alemã veio alterar de forma muito profunda as relações de poder na União Europeia. Mas o que não deveria acontecer é que esse poder acrescido viesse pôr em causa o método comunitário assente na permanente busca de compromissos entre variados e diferentes interesses e que foi adotado com sucesso durante décadas. O caminho que ultimamente vem sendo seguido é o oposto, é errado e terá consequências dramáticas para toda a Europa. Basta ler a história não muito longínqua para o perceber.
Não será boa ideia que as alterações políticas e institucionais necessárias à Europa venham a ser feitas baseadas, quase exclusivamente, nos interesses da Alemanha. Isso seria a negação do espírito europeu. Da mesma forma, também não será do interesse europeu o desenvolvimento de sentimentos anti-Alemanha.
Tenho a perceção de que a distância entre estas duas visões está a aumentar de forma que parece ser cada vez mais rápida e, por isso, são necessários urgentes esforços, visíveis aos olhos da opinião pública, de que a União Europeia só poderá sobreviver se as modificações inadiáveis, especialmente na zona euro, possam garantir que nos próximos anos haverá convergência entre as economias dos diferentes Estados-membros.
As declarações de Vossa Excelência vão no sentido de cavar ainda mais aquele fosso e, por isso, como referiu recentemente Jean-Claude Juncker a uma revista do seu país, os fantasmas da guerra que pensávamos estar definitivamente enterrados, pelos vistos só estão adormecidos. Com esta declaração, Vossa Excelência parece querer despertá-los.

José da Silva Peneda

Presidente do Conselho Económico e Social


Será que Silva Peneda terá tido a gentileza de enviar cópia da carta ao ministro Gaspar? E se não enviou, o ministro Gaspar (que dela deve ter ouvido falar) terá tido a curiosidade de a ler, para se informar junto de quem sabe do que fala, como lhe compete? E num próximo encontro com o ministro alemão perguntar-lhe-á se recebeu e leu a dita carta e, em caso afirmativo, se respondeu à mesma e os termos em que o fez? E poder-se-á ter conhecimento público do seu conteúdo?
Em qualquer caso, louvo a postura e a atitude de Silva Peneda, que não pode ser confundido com os gaspares-relvas-passos de que o país está enxameado. 




quinta-feira, 28 de março de 2013

A entrevista


Mais de um milhão e setecentas mil pessoas assistiram ontem à entrevista de José Sócrates e eu fui um deles. Devo confessar que Sócrates não defraudou as minhas espectativas. Foi um bom regresso à vida pública mas não, como ele explicou, à vida política activa.
Pois bem, até que enfim que o ex-primeiro-ministro teve oportunidade de contraditar todas as acusações que lhe foram feitas, pelos seus adversários políticos, por muitos comentadores e, não menos, pela comunicação social. Não vou repetir os argumentos que ele utilizou, mas devo dizer que se defendeu com convicção, sobretudo para que caia essa mistificação de que ele é o único culpado, ou até o maior culpado, da situação a que chegamos. Gostei particularmente da coça (foi este o termo usado por Pedro Santos Guerreiro do Jornal de Negócios) que Sócrates deu a Cavaco Silva. Dividiam-se as opiniões sobre se seria o Governo ou o PS, o principal visado por ele. Afinal quem foi  mais atacado foi o Presidente da República. Quem o mandou atacar Sócrates pelas costas?
   

O ESPIÃO

A estória do regresso do ex(?)-espião está muito mal contada e deve ser esclarecida. Além do mais, o despacho do Passos e do Gaspar é claro quanto à retroactividade do vencimento, nada adiantando a afirmação de um secretatário de Estado de que não é bem assim.
A prometida lisura de procedimentos por parte deste governo é posta em causa todos os dias, com as contratações e nomeações. A sua credibilidade, neste como em muitos outros aspectos, já foi.

O REGRESSO DO BEM/MAL AMADO

Sócrates, o bem ou mal amado, voltou e, ao seu jeto, disparou em todas as direcções.
A maior bazucada, porém, caiu em Belém. O destinatário deveria estar, prevenidamente, nos subterrâneos do palácio, a seguir o ataque na tv. Não foi atingido mortalmente, mas deve ter apanhado um grande cagaço. Sempre quero ver como vai replicar ao ataque, via página do facebook ou numa visita a uma fábrica de enchidos.

quarta-feira, 27 de março de 2013

FOI VOCÊ QUE FALOU EM PRESSÕES?

Vivemos “tempos históricos” e o Tribunal Constitucional tem de ter responsabilidade pelo “impacto” que a sua decisão pode ter no país, disse nesta quarta-feira o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho

Público on line


Se isto não é uma pressão sobre o TC, não sei o que é uma pressão.

terça-feira, 26 de março de 2013

EX-ESPIÃO, O PROTECTOR

Li algures que o ex-espião reingressou na função pública, de que se tinha demitido, para proteger o ministro professor doutor Relvas.
Acredito piamente, crédulo que sou por natureza.

O MINISTRO LOUÇÃ GASPAR E AS SUAS OLHEIRAS

O Louçã Gaspar, suposto ministro das Finanças deste desgraçado país, disse desde Nova Iorque, que pretende reformar o Estado (seja lá o que isso significa) com a ajuda do PS. Este, tal como os companheiros, a começar pelo cabeçudo (de cabeça) Passos, dar-me-ia vontade de rir se o momento não fosse de profunda tristeza e abatimento. Seguro vai dar troco? E, se sim, de quanto? 
No mínimo, não gozem com o pagode.

FUTEBOL, QUAL FUTEBOL?

Melhor do que o futebol da selecção portuguesa (fraquinha, fraquinha, e a Irlanda do Norte até perde em casa com Israel) é o ex-espião Silva Carvalho que, depois de se demitir e ir à sua vida, é readmitido num cargo para si criado, com retroactivos a 2010 e tudo. Isto é que são jogadas de mestre, não as dos comandados por Paulo Bento, que são uns azelhas.
Há jogadores que sabem posicionar-se e o árbitro é complacente com eventual/flagrante  fora de jogo. Bem se sabe que há regras de jogo, mas cada qual interpreta-as à sua manieira, né?

Futebol - a nossa selecção


A selecção nacional de futebol cumpriu a sua obrigação e ganhou ao Azerbaijão por 2-0. Mas diga-se em abono da verdade que jogou praticamente o segundo tempo com mais um jogador, por expulsão (segundo amarelo) de um jogador da equipa adversária.
Pois, apesar da vitória, não retiro uma palavra ou uma vírgula do que escrevi ao intervalo. Deixámos de ser uma boa equipa. Somos uma equipa razoável que até pode qualificar-se para o Brasil no playoff, mas só isso.
Já agora, usando o tipo de linguagem buçal e rasteira de Paulo Bento, permitam-me “debitar uma posta de pecada”: Não há um ponta de lança português, de nascimento ou por naturalização, melhor que Hélder Postiga? Não acredito.


Futebol - a nossa selecção ao in tervalo


A selecção nacional de futebol está a empatar ao intervalo com a selecção do Azerbaijão. Só se espanta quem ainda não caiu na realidade. Já foi tempo que tínhamos uma boa equipa. Agora, não passa de razoável. E só os questionáveis critérios da FIFA nos colocam no sétimo lugar do ranking. Como é possível? Ora o Azerbaijão está em centésimo décimo sexto, portanto mais de cem lugares abaixo. É difícil de acreditar, não é? Pois é, mas quem tem um ponta de lança que falha golos de baliza aberta não merece estar nos primeiros dez lugares do ranking. Neste jogo, do meio campo para a frente só se safa o Vieirinha. Quem diria!

segunda-feira, 25 de março de 2013

O Senhor Salassie é outro safado!


O Senhor Abebe Selassie, chefe da missão do FMI em Portugal e um dos elementos da Troika que nos desgraça, ou está a gozar com os portugueses, ou não merece mesmo outra qualificação senão aquela que lhe foi dada pelo banqueiro Fernando Ulrich, grande estudioso da vida dos sem abrigo: “ É um funcionário de quinta categoria”.
Selassie, em entrevista que concedeu à Lusa, na sequência da sétima avaliação vem, qual carpideira, mostrar-se muito preocupado com o brutal aumento do desemprego, dizendo que foi muito pior do que o esperado, chamando-lhe “um resultado muito infeliz”. É preciso ter lata! Então a mesma receita não tinha dado o mesmo resultado na Grécia? E, por isso, tendo em conta que logo nas primeiras avaliações se verificou que o desemprego disparou para valores nunca esperados, não era de mudar a receita? Claro que era. Só que o senhor Selassie não diz a verdade, e “chora lágrimas de crocodilo”, pois, para gaudio de muitos empresários sem escrúpulos, o que ele lá no fundo preconiza é que o país empobreça e que aumente o desemprego de modo a que as pessoas trabalhem por uma malga de arroz. Mas isso ele não confessa. Porque é outro safado!   

CRÓNICAS DO ZÉ GIL

MARÃO




Gil Monteiro*



“ Marão não dá palha nem dá grão”, era o que mais ouvia nas brincadeiras e expressões de miúdo. A palavra enchia tanto a boca, na prenúncia, que tinha de se referir a algo muito grande!

Foi necessário o Sr. Prior de S. Martinho de Anta dar aulas de catequese, na capela da Nossa Senhora da Azinheira para, do alto serra, poder observar as montanhas do Marão! Os tempos livres, durante a aprendizagem da doutrina, eram passados na serrania, quase desprovida de árvores, excepto os famosos castanheiros ao redor da capela. Enquanto jogávamos às escondidas, entre penedos, procurávamos grutas e achados megalíticos (antas), e vejo o Fernando, de mão a fazer de pala na testa, a dizer:

– São lindos os montes do Marão!

– Para lá daqueles lados fica o Porto...

Um agricultor, sem olivais ou vinhas no Douro, tratava a primor as pequenas leiras ou lameiros, soutos ou pinhais e cuidava de parcelas de montes, de onde retirava lenha e mato, para as cortes dos animais, e estrume para os campos. O direito de limpar os terrenos, não usados na agricultura, era lucrativo e, por vezes, comprado por vizinhos ou outros lavradores.

Entre os vários prazeres do agricultor, há um que lhe é muito grato: mostrar as suas propriedades aos amigos interessados nas fainas campestres. E, quando ouve um piropo, do tipo: – O seu lameiro da Fonte é muito grande, é um Marão! A sua alma vai ao Céu (!) e quando, na adega oferecer vinho da pipa, ainda “ sonha” que está a ofertar o néctar dos deuses, em terras sagradas!

Só no tempo de frequentar o liceu, em Vila Real, é que palmilhei o Marão. Se nevava pela manhã, à saída das aulas a Foto Marius já apresentava fotografias, na montra da rua Central, e à tarde íamos, pela estrada da Campeã, ver o manto branco!

Tive a sorte de ter bons professores do ensino liceal, o melhor de todos foi o Dr. Catarino Nunes. Lembro o Dr. Godinho, a leccionar biologia e geologia, fazendo um ensino integrado no meio local.

S e os recursos mineralógicos das serras do Alvão (agora mais publicitada) e Marão foram objeto de estudo, principalmente as magnetites, o revestimento vegetal não foi esquecido; os fornos da Boavista e as” pelas” foram bem observadas.

Quem diria, anos idos, que o quartzo da serra passou a dar mais divisas a Portugal, e por ano, do que o vinho do Porto exportado! Falo dos áureos tempos da laboração da fábrica de silício de Bagauste (Régua),no tempo em que tínhamos energia barata e abundante das barragens do Douro. O polo de fabrico de silício passou para o Brasil, onde havia turbinas elétricas inativas, por falta de consumo energético!

Um dia, o Dr. Godinho pôs os alunos à prova:

– Por que motivo a serra virada para Vila Real é nua e do lado da Pousada tem muito arvoredo?!

Matutando, matutando, um discípulo, lá descobriu o mistério.

– Do lado do Porto os ventos são húmidos, subindo as montanhas perderam o vapor de água, logo...

Hoje o princípio não é tão verdadeiro, pois há a florestação científica, que conseguiu inverter os dados.

As encostas da Campeã têm terrenos “virgens”, muito humosos e produtivos. Alguns, já foram utilizados na produção de batata, tipo Montalegre. Os resultados foram muito bons, principalmente no uso dos tubérculos para replantar noutros locais transmontanos ou durienses.





Porto, 1 de março de 2013



*José Gil Correia Monteiro

jose.gcmonteiro@gmail.com

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LIDO

A paixão de Sócrates


22 Março 2013, 00:01 por Pedro Santos Guerreiro
psg@negocios.pt

2669435inShare.7O homem é um colosso. Só alguém tão carismático como José Sócrates poderia regressar menos de dois anos depois. Mas mesmo isso não bastaria se as actuais lideranças políticas fossem fortes. Não o são: no Rato e na Lapa só há pão-de-ló. Em Belém, chá.

Só se pode encher o que está vazio. A orfandade de lideranças políticas é um buraco tão monstruoso que lá cabe o PS, o PSD e, vá lá, a União Europeia inteira. Ora, Sócrates é uma caderneta de defeitos mas é um líder, um excelente comunicador e um animal político não apenas feroz, mas também mais eficaz que todos os outros juntos. Não é carnívoro nem herbívoro, segundo a legenda de Marcelo Rebelo de Sousa: é omnívoro. Um profissional temível entre amadores amáveis.



Sócrates será um campeão de audiências (sempre o foi, mesmo em Paris) e de fracturas. O seu carisma e linguajar populista acomodam-se a uma idolatria chavista. É, além disso, um personagem intrigante: nunca antes nem depois dele se escreveram tantos "perfis psicológicos" sobre um primeiro-ministro. O país tem uma paranóia com ele, entre os que o odeiam e os que o amam. Ele não une, atrai e repele, pelo que divide. Mas vai meter António José Seguro num chinelo e bater em Passos com o outro.



Sabe o que pensa Passos Coelho da União Europeia? Sabe como quer Seguro resolver os desequilíbrios macroeconómicos do país? Sócrates diz duas frases e toda a gente percebe, concordando ou discordando. Isso é política. E isso vai retirar o PS do centro da oposição.



É por isso que há neste regresso de José Sócrates muito mais que uma inconveniência ou uma excitação. Da mesma maneira que até Manuela Ferreira Leite já chegou a ocupar o espaço de Seguro, Sócrates vai liderar a oposição. Vai acertar contas com Cavaco Silva, que pensou ter dado o golpe de misericórdia no célebre prefácio de há um ano. Vai acertar contas com Passos Coelho, que, sabe-se hoje, mentiu quando se disse surpreendido pelo PEC IV.



As culpas de Sócrates estão documentadas. São gigantes. Como primeiro-ministro, praticou um relativismo moral assustador e um utilitarismo da verdade; endividou o país com políticas de betão que faliriam, tomou conta dos negócios e se hoje diz que só fez o que a União Europeia o mandou fazer, então é igual a Passos na obediência à troika. A saída de Sócrates foi penosa, numa cegueira enlouquecida e negacionismo alucinado que ajoelhou o país. Por tudo isso perdeu umas eleições e será ou não derrotado noutras. Mas nada disso o impede de voltar. Ainda nos irritaremos, ou riremos, quando ouvirmos Sócrates dizer que deixou o Governo com um desemprego de apenas 12%, o PIB sete pontos percentuais maior, a riqueza gerada por cada português ("per capita") mil euros mais alta que agora.



O regresso de Sócrates é um murro na vidraça desta política açucarada em que vivemos. Mas não é só ele. Ontem, Teixeira dos Santos acusou o Governo de memória curta, Maria de Lurdes Rodrigues deu uma entrevista ao i contra os despedimentos de professores, Jorge Coelho estreou-se na SIC Notícias, Pedro Marques atacou Gaspar no Parlamento, Francisco Assis escreveu no Público e Ferro Rodrigues criticou o Governo. Neste "comeback", Elvis não estão só. Não é a brigada do reumático, mas é a brigada do traumático. E Seguro, sim, ficará desasado.



Líderes fortes não dariam espaço a quem deixou o país casado à força e de papel passado (e assinado) com uma troika que despreza. Mas os partidos são as vítimas de si mesmos, da falta de possibilidade de renovação, da preservação doentia. É sempre a mesma gente e, quando é outra (como Rui Moreira tenta no Porto), é triturada pelas debulhadoras.



Na célebre parábola d’ "Os Irmãos Karamazov", de Dostoiévski, o Grande Inquisidor manda prender Jesus Cristo, que, regressado à Terra em pleno século XVI, se passeia incógnito, mas é reconhecido: toda a gente sente o seu poder. Sócrates regressa à entrada da Quaresma, quando os cristãos trilham o caminho do esforço para se purificarem e acreditam de novo que tudo é possível. Para chegar à ressurreição é preciso passar pela paixão. E paixão não falta a Sócrates. Nem ódio por ele.



Isto não é um show de televisão, isto é política. Sócrates não vai ser comentador, vai ser poderoso, vai forçar a definição de uma nova expectativa política em Portugal, vai pôr em causa a água choca desta ordem estabelecida, partindo o que antes se dobrava. Vai desestabilizar. Vai contribuir para a ingovernabilidade. Vai arregimentar quem prefere dar murros em vez de abraços. Vai ser um fartote.


Pedro Santos Guerreiro, in Jornal de Negócios






domingo, 24 de março de 2013

O regresso de Sócrates


 A Direita está nervosa e completamente atormentada com o regresso de José Sócrates à vida pública, sobretudo ao comentário político semanal de vinte e cinco minutos na RTP. Habituaram-se nestes quase dois anos em que deixou o Governo a atacarem-no pelo que ele fez e pelo que não fez, sabendo que não estavam sujeitos ao contraditório, pois atendendo às circunstâncias nem Sócrates nem alguém por ele contradizia ou contestava muitas das acusações que lhe eram feitas. Sócrates só pode responder pelo estado em que o país ficou até à sua saída. Ora, os números falam por si. A situação económica, financeira e social do país está muito pior. A partir de agora já vão ter que medir as palavras, não é?
Bom, mas o nervosismo é tal, que depois de os mais radicais terem reações próprias de países autoritários do terceiro mundo ou de países “pouco democráticos” como China e Cuba, por exemplo, aparecem agora alguns figurões a dizer que o regresso de Sócrates é mais prejudicial para o PS. Porquê? Chegam ao ridículo de alvitrar que o convite da RTP a José Sócrates é uma maquinação de Miguel Relvas. Que ridículo! Ao ouvir isto, Relvas, por certo, até se julga mais safado do que aquilo que já é.
Mas para lá da Direita há mais alguém que, de certo, já terá dito no seu círculo privado: “Ó cum caraças!” Falo de Sexa o nosso venerando Presidente, que foi um dos obreiros da queda de Sócrates e da subida de Passos ao poder. Ou me engano muito, ou “vai levar p’ra tabaco”. Por mim…, fico à espera!

sábado, 23 de março de 2013

"O DESENHO"

O Governo tinha até aqui uma única narrativa, agora passou a ter duas. A primeira, diz que Portugal está “no bom caminho” e tem tido “bons resultados” porque está a cumprir o Memorando da ‘troika’.


A segunda, explica que os resultados são maus porque o Memorando da ‘troika' estava "mal desenhado desde o início". Como se percebe, estas duas narrativas têm um pequeno problema: são contraditórias. Uma desmente a noutra. A conclusão a tirar só pode ser esta: a vítima mais recente do Governo é a lógica.

Os partidos que estão no Governo não têm, obviamente, nenhuma legitimidade para invocar deficiências no desenho inicial do Memorando: ambos participaram nas negociações e ambos subscreveram o acordo com a ‘troika'. Concluído esse acordo, aliás, o próprio Eduardo Catroga, negociador indicado pelo PSD, fez questão de convocar uma conferência de imprensa (3-5-2011) para dizer ao País que a negociação tinha sido "essencialmente influenciada pelo PSD". E dias depois, em entrevista ao Público, deixou dita para a história uma frase que hoje convém recordar: "Quem apresentou à ‘troika' a estratégia de consolidação fiscal fomos nós" (11-5-2011).

Mas se os partidos do Governo não podem desresponsabilizar-se do Memorando inicial que negociaram e subscreveram, menos ainda podem agora invocá-lo para explicar os maus resultados da sua governação. E por uma razão simples: a política de austeridade que o Governo executou não corresponde à que estava prevista no "desenho inicial" do Memorando. A verdade é esta: com a sua política de austeridade "além da ‘troika'", entretanto vertida em sete (!) revisões do Memorando, o Governo é que destruiu todos os equilíbrios conquistados na versão original.

Para se perceber a dimensão deste desvio, recomendo a consulta de um quadro que o próprio ministro das Finanças divulgou na conferência de imprensa de apresentação dos resultados da sétima avaliação da ‘troika'. Trata-se de um quadro que compara as medidas de consolidação orçamental previstas no Memorando inicial com as medidas efectivamente executadas pelo Governo. A conclusão é simplesmente aterradora: em 2012, o Memorando inicial previa medidas de austeridade no valor de 4,8 mil milhões de euros mas o Governo executou 9,6 mil milhões de euros; em 2013, o Memorando inicial previa 2,8 mil milhões de euros mas o Governo pretende aplicar 5,8 mil milhões de euros. Contas feitas, só nestes dois anos, em vez de 7,6 mil milhões de euros, o Governo propõe-se tirar à economia 15,4 mil milhões de euros! Dito de outra forma: o programa de austeridade que o Governo está a executar é mais do dobro (!) do que estava previsto no "desenho inicial" do Memorando. É isto a austeridade "além da ‘troika'".

Sucede que já é possível dizer que esta estratégia do Governo, apesar dos enormes sacrifícios que pediu aos portugueses, foi um completo desastre. Os resultados da sétima avaliação aí estão para o provar: 6,6% de défice, 123% de dívida pública, três anos consecutivos de recessão e 19% de taxa de desemprego já este ano. Uma tragédia. Não é preciso fazer um desenho para se perceber que é urgente fazer alguma coisa.



Pedro Silva Pereira, Jurista

In DE


A desmontagem do "desenho"





















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LIDO




Austeridade de 23,8 mil milhões só baixa défice em 6,6 mil milhões

A maior parte das medidas aplicadas não teve efeito na redução do défice. Mesmo tendo ido além da troika, o Governo não escapa a duas revisões das metas orçamentais.

 Números apresentados pelo ministro das Finanças mostram que, em três anos (2011, 2012 e 2013), o Governo vai aplicar medidas de austeridade no valor de 23,8 mil milhões.

É mais do que, por exemplo, toda a economia de Chipre e corresponde a cerca de 14% do produto interno bruto (PIB) português. Só que o efeito em termos de correção de défice está longe deste valor.


In Expresso online


Quando estivermos todos mortos, o Passos e o Gaspar podem suspirar de alívio por terem alcançado os seus objectivos.


sexta-feira, 22 de março de 2013

Futebol a nossa selecção


E pronto. O melhor que a nossa selecção conseguiu em Israel foi um empate a três golos. Volto a referir: como é possível que estas duas selecções estejam distanciadas no ranking da FIFA por mais de sessenta lugares? Este é que é um enigma difícil de compreender
Algumas perguntas para Paulo Bento:
- Mesmo tendo em conta que Éder , jogador do Braga, está lesionado, não há outros pontas de lança portugueses melhores que Hélder Postiga e Hugo Almeida?
- Liedson, que actualmente está em Portugal, já jogou na selecção portuguesa e se mostra ainda disponível, porque não foi selecionado? Mesmo já “cheio de varizes” não é melhor que aqueles dois?
- E Lima; já deu a entender que, se selecionado, não diria não.
- Marcar um golo cedo, acaba por não ser bom para a selecção? Então, é melhor sofre-lo?
Pobre selecção a nossa!   



Futebol - a nosa selecção ao intervalo


A selecção nacional de futebol está a perder ao intervalo com a selecção de Israel. E, quanto a mim, merecidamente. Tivemos mais tempo de bola? É verdade. Mas os israelitas sempre que a tiveram jogaram melhor, porque jogaram mais prático. Tivemos oportunidades? Pois tivemos. Mas, sobretudo Postiga não soube concretizar as que teve, e foram bem melhores do que aquelas que os israelitas tiveram. Só que eles concretizaram. Logo têm mérito. E já agora: Ouvi que há uma diferença de sessenta lugares entre as duas equipas no ranking da FIFA. Pelo que vi, em lugar mais alto deve estar a selecção de Israel!
Outra pergunta: Onde está o melhor jogador do mundo?
Ou na segunda parte tudo muda, ou puxemos dos lenços brancos para dizer adeus ao Campeonato do mundo do Brasil.

 

quinta-feira, 21 de março de 2013

Estão com medo de quê?


José Sócrates, pelos vistos, ainda incomoda muita gente, sobretudo gente ligada à maldita coligação que nos governa e que, passados dois anos, pôs o nosso país económica e financeiramente muito pior do que estava quando o ex-primeiro ministro deixou o governo.
Pois bem; a direcção de Informação da RTP convidou José Sócrates para uma entrevista e, depois dela, para fazer parte de um painel de comentadores que uma vez por semana, durante vinte e cinco minutos, vão opinar sobre assuntos da actualidade. Outro dos comentadores, também já confirmado é o ex-ministro do PPD Nuno Morais Sarmento.
Divulgada a notícia do regresso à vida pública de José Sócrates, logo a Direita se agitou. O CDS diz que quer explicações sobre critério da escolha. O PPD mandou que fosse o líder da sua “jota” a pronunciar-se. E, tal como era de esperar, o chefe da canalha, um tal Hugo Soares, veio atacar Sócrates dizendo-se indignado pelo facto de o ex-primeiro ministro ser convidado de honra da televisão pública, paga por todos os portugueses. Esquece-se o dito rapaz que José Sócrates não vai ser pago pela sua colaboração com a RTP. Que se saiba, Sócrates está no uso de todos os seus direitos cívicos e políticos. Tentar calá-lo através da interferência nos critérios editoriais, não é próprio de um Governo dum Estado de Direito Democrático. É próprio, sim, de países pouco democráticos (a democracia não se esgota em eleições), como Angola, Cuba, China, ou Rússia. De qualquer modo dá que pensar o porquê do pânico que se apoderou da Direita que nos governa. Estão com medo de quê?   

QUE SAUDADES QUE EU JÁ TINHA...

Vi, há pouco, o Mário Nogueira na TV. Não sei o que disse nem a propósito de quê, tal o meu embevecimento com a figura. Que saudades que eu já tinha do Mário Nogueira... Apareça mais vezes, homem! Tal como o Zé, Você faz falta.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Outro safado


Quem também apareceu hoje a desculpar-se da trágica situação em que o nosso país se encontra, com a suposta má negociação inicial do memorando, foi Victor Gaspar – outro safado!
Tenho quase a certeza que eram raros os portugueses que conheciam ou já tinham ouvido falar de Victor Gaspar, antes de nos ter sido apresentado como ministro. Depois, para lá de nos terem dito que Gaspar era primo de Francisco Louçã, apresentaram-no como um reputado economista, muito conceituado nos meios político-financeiros europeus e, por isso, o homem certo para implementar uma política financeira de acordo com o memorando assinado com a Troika e de modo a atingir os objectivos nele definidos.
Pois bem, Victor Gaspar foi sucessivamente alterando os objectivos, sempre para pior, e após a sétima avaliação conclui-se que não acertou num só. Falhou em tudo. Portugal está muito pior. O défice continua descontrolado e a dívida pública, o desemprego e a recessão não param de crescer. Foi confrangedor ver Gaspar a justificar o injustificável naquela maldita conferência de imprensa após a sétima avaliação.
Por tudo isto, Victor Gaspar só tinha um caminho a seguir – deixar de ser ministro. Mas Gaspar, tal como Passos Coelho, não tem dignidade política. Se tivesse, tinha-se despedido dos jornalistas dizendo-lhes que, acabada a conferência de imprensa iria encontrar-se com o primeiro-ministro e entregar-lhe o pedido de demissão. Infelizmente não o fez, para nossa  desgraça!

grandes safados!


Todos nos lembramos de Passos Coelho, enquanto líder do PPD na Oposição, justificar o voto contra do seu partido no PEC IV, dizendo que aquele plano de estabilidade e crescimento, posto em prática, ia agravar a vida dos portugueses de forma inaceitável. Chumbado o documento, que José Sócrates tinha concertado com alguns líderes europeus, o então primeiro-ministro concluiu que não tinha condições para continuar a governar, até porque o Presidente da República estava a “empurrá-lo”. Depois, durante a campanha eleitoral Passos Coelho fartou-se de dizer que, conhecendo bem a situação, tinha as soluções para resolver o problema. E, ironia das ironias, chegou ao desplante de, questionado por uma jovem cidadã se seria verdade a notícia que falava na hipótese de cortes nos subsídios de férias e de Natal, responder: “isso é um disparate”!
Já primeiro-ministro, Passos Coelho fartou-se de elogiar o memorando assinado com a Troika, chegando a referir que tal documento estava perfeitamente de acordo com o seu programa de governo, entretanto aceite pelo Parlamento. Mais; Passos Coelho disse que, em termos de medidas a tomar, era preciso ir para lá das do memorando. Ou seja, era preciso ser “mais troikista que a Troika”.
Sucedem-se, então, as chamadas avaliações: a primeira, a segunda, a terceira, etc. Em todas elas o resultado é o mesmo: avaliação positiva; estamos a cumprir o programa; estamos no bom caminho. E isto, apesar dos partidos da Oposição e de várias entidades e personalidades com relevo na área económico-financeira preconizarem o contrário. Mas em vão. O Governo e a Troika “fazem orelhas moucas”. Chega a sétima avaliação, considerada importantíssima, e o resultado…, não podia ser pior: o défice completamente descontrolado, a dívida pública a aumentar cada vez mais, a recessão económica e o desemprego sempre a subir. Um desastre. Reconhecido, até, por muita gente da área dos partidos do poder.
Pois bem, aparecem agora figuras (ou melhor, figurões) do PPD a dizer que o problema está no facto de o memorando ter sido mal negociado. Então, andaram quase dois anos a elogiá-lo, a dizer que nada os faria desviar dos caminhos nele apontados, e agora descobrem-lhe defeitos? Estes gajos (não merecem outro nome) são uns safados!

TAMBÉM TU, LAGARDE?

A residência em Paris de Christine Lagarde, a directora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), foi alvo de buscas esta quarta-feira no âmbito de investigações ao “caso Tapie”. Lagarde é suspeita de desvio de fundos públicos e abuso de autoridade no caso que envolve a venda da Adidas pelo Crédit Lyonnais.




As buscas foram confirmadas pelo advogado de Lagarde em declarações à Reuters. “Lagarde não tem nada a esconder. Estas buscas vão ajudar a descobrir a verdade, o que contribuirá para que a minha cliente fique isenta de qualquer responsabilidade penal”, disse Yves Repique à agência noticiosa.



O caso em investigação começou há mais de 20 anos, com a venda litigiosa da Adidas pelo Crédit Lyonnais. O empresário Bernard Tapie, proprietário da marca de equipamento desportivo, diz ter sido lesado pelo banco na venda e recorreu para tribunal.



Enquanto ministra da Economia de Sarkozy (2007-2011), Lagarde terá decidido que o processo ficasse sob a responsabilidade de um tribunal arbitral, uma instituição que apenas têm competências para resolver litígios comerciais e procurar obter compromissos entre as partes. Em 2008, a estrutura pública que geria o passivo do Crédit lyonnais foi condenada pelo tribunal arbitral, uma instância sem poder decisório, a pagar uma indemnização de 295 milhões de euros a Bernard Tapie. O escândalo rebentou em França depois de se ter confirmado que a decisão final tinha saído de um tribunal arbitral e que tinham sido dinheiros públicos a pagar a indemnização multimilionária. A justiça francesa decidiu abrir uma investigação para apurar de o caso de arbitragem terá lesado o Estado.



Desde que o seu nome surgiu associado à investigação do caso Tapie, Christine Lagarde negou qualquer irregularidade no processo e considerou “absurdas” as acusações que lhe foram feitas. Tornados públicos dados sobre o caso, foi pedida a demissão de Lagarde da direcção do FMI em 2011, ano em que substituiu Dominique Strauss-Kahn no cargo e em que foi confirmado que iria ser investigada por desvio de fundos públicos e abuso de autoridade, na arbitragem do chamado “caso Tapie". Lagarde afastou sempre a possibilidade de demitir-se.



Além da residência de Lagarde, desde o início das investigações foram realizadas buscas ao gabinete do antigo secretário-geral do Eliséu, Claude Guéant, à casa de Bernard Tapie e de Stéphane Richard, director do gabinete de Lagarde aquando da arbitragem do processo.


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