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quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

COMO DIZ?


Da História, da língua e da ortografia

 Retiro da carta de um leitor a um jornal:

"Já em 1969, o Chefe de Estado, Marcello Caetano, anunciava  que se iria construir um novo aeroporto)".

(Sublinhado meu)

Que eu saiba, esse Marcelo era Presidente do Conselho (de Ministros).


No mesmo jornal, leio um artigo de um escritor, descendente de um dos melhores escritores de língua portuguesa:


"...e o propósito de perder vinte e cinco quilos e trezentas e trinta e três gramas..."

(Sublinhado meu) 

E assim vamos escrevendo, lendo e ouvindo.



sábado, 17 de dezembro de 2016

LIDO

Passos Coelho voltou a dizer coisas

O frasismo não é fase minha, gostei sempre. Do velho Millôr, que conheci miúdo, na revista brasileira Cruzeiro ("anatomia é uma coisa que os homens também têm, mas que, nas mulheres, fica muito melhor"), ao igualmente já falecido José Sesinando, no Jornal de Letras ("os terroristas raciocinam por explosão de partes"), até ao vivíssimo Dalai Lima, que tem um blogue e publica pensamentos em livros ("os adeptos do aquecimento global pecam às vezes por excesso de gelo")...
A frase dos frasistas é coisa curta, é como quem não quer a coisa, mas custa muito. Ainda estou a ver o Millôr Fernandes, como um Miguel Ângelo, frente a um dicionário Aurélio, que era o seu bloco de granito, cinzelando o supérfluo, palavra a palavra, tira vírgula, dá um passo atrás, bate no joelho de Moisés que todas as boas frases têm, e ordena: "Fala!" Se ela for uma boa frase, fala.
O frasismo é uma coisa cultivada, voluntariamente procurada, dificilmente achada. O que deve custar aos talentosos e sempre esforçados frasistas verem a obra que lhes sai do pelo ultrapassada em popularidade pelas frases saídas sem custo nem pensamento do linguajar comum. "Prognósticos só no fim do jogo", "isso é um assunto do forno interno do clube", e assim.
A literatura inglesa não quis deixar o humor involuntário por enganos alheios e criou, logo no século XVIII, uma personagem, a Sra. Malaprop, na peça teatral The Rivals, de Richard Brinsley Sheridan, que tropeça nas palavras. Trocava, por exemplo, pineapple (ananás) por pinnacle (pináculo) - o que só numa estátua de Carmen Miranda pode ser confundido. Shakespeare e Charles Dickens criaram personagens com bem melhores erros linguísticos, mas Mrs. Malaprop tem a vantagem de ter cunhado o termo em inglês: "malapropism" usa-se para o que tornou famosos os dizeres de João Pinto e seus seguidores. Se Jorge Jesus me ler ainda vamos ouvi-lo dizer: "Os malalpinismos são pinas para nós."
De usar palavras erradas e causar com isso um efeito cómico não está ninguém livre. Há dias, um leitor chamava a atenção para um minúsculo erro, quase gralha, que me aconteceu. Evidentemente, cito-o porque o percalço não me ridiculariza muito. Escrevia eu, nesta página, sobre o banzé que fez a bancada parlamentar do PSD acerca de um quase-nada. Toda crónica andava à volta da insegurança que parecia ter-se instalado entre os sociais-democratas. Escrevi: "Passos Perdido", assim, sem "s", aludindo ao corredor de São Bento onde os deputados se juntam. Millôr, Sesinando e Dalai Lima, tenho a certeza, teriam escrito o mesmo: Passos Perdido. Mas tê-lo-iam feito voluntariamente. Fazer uma boa piada sem querer não me orgulha muito.
Até pela companhia, o já citado Passos está a tornar-se um campeão da piada involuntária. Na verdade, ele está a fazê-las de forma involuntária muito especial. É que Passos quer fazê-las, mesmo, são piadas voluntárias, mas não tendo piada elas criam uma situação cómica involuntária. Não sei se dão conta, mas isso é do humor mais puro.
O problema com o humor de Passos é que ele é mediado pelos jornalistas, das classes profissionais mais destituídas de graça. Por isso José Sesinando vendia as suas frases diretamente a leitor, não se deixava entrevistar nem convocava uma conferência de imprensa para dizer: "Foi Copérnico quem primeiro viu a estrela pular." Qualquer microfone da SIC ou da TVI, estendido - "mas os fenícios já não conheciam a Estrela Polar?", "foi o Copérnico que a descobriu?"... - estragava o efeito hilariante da frase. Agora, os microfones andam à cata de explicação para o último chiste de Passos: "Sô doutor, sô doutor, o que é que quis dizer com os Três Reis Magos?"
Piada não se explica, meus. Ah, mas Passos estava a fazer uma piada? Espero que sim. Nem que seja uma piada sem querer, sempre é melhor do que uma tolice política, voluntária ou involuntária, que é a única alternativa para o episódio. Rebobinemos. Anteontem, num jantar no Parlamento com os seus deputados, Passos Coelho fez uma "predição", como ele lhe chamou: em janeiro, chegam os Três Reis Magos. Nessa mesma sala, como lembrou no seu discurso desta semana, ele despedira-se dos correligionários, nas férias de verão, avisando que em setembro "vinha aí o diabo." Setembro é a rentrée, parecia mau augúrio, o país político temeu uma crise. Sabe-se como o outono foi ameno.
Anteontem, com aquela boca arrepanhada que alguém o convenceu ser a marca de estadista, Passos anunciou a chegada dum trio, trio de três como as troikas, montado em camelos, mas troika. Para percebermos haver metáfora, ele nomeou Baltazar, Belchior e Gaspar que vinham aí para as janeiras, com "Gaspar" bem sublinhado. Herman José, para nos prevenir que era momento de subentendidos, rodava as mãos à volta de uma bola de basquete ilusória, Passos torna mordaz o fio dos seus lábios estadistas.
Pela primavera, lá teremos, nova predição, talvez sobre Santo António. "Sô doutor, sô doutor, o que é que quis dizer com o Santo António?"... Ora, talvez a questão seja: e se Passos não quis dizer nada? É que ainda me lembro daquela frase dele, em 2014: "Não devemos esfolar um coelho antes de o caçar." Como se algum português ignorasse que esfolar um coelho que esperneia é difícil, quanto mais ousar fazê-lo a um que ainda corre nos bosques. Passos Coelho fala por falar. Talvez também tenha lido o Dalai Lima: "Meu filho, tens de ter adjetivos na vida."


Ferreira Fernandes, in DN


sábado, 21 de novembro de 2015

LIDO - 2


OPINIÃO

A geringonça e a avantesma

O governo minoritário do centro-esquerda do PS com a apoio parlamentar do BE e do PCP ainda é uma geringonça, mas quanto mais baixas forem as expectativas mais a geringonça se pode transformar numa máquina a sério. Ou talvez não.



A caracterização do eventual governo do PS como uma “geringonça” foi feita por Vasco Pulido Valente e repetida com evidente gozo por Portas, dando o mote para vários deputados do CDS que costumam repetir o chefe. Muito bem, não me parece que haja qualquer problema em aceitar a classificação, tanto mais que ela não é tão pejorativa como eles pensam. Mas proponho outra simétrica para o governo PSD-CDS, muito menos ambígua e que não há imaginação criadora que lhe encontre qualquer sentido positivo: a avantesma. A geringonça apareceu para que não nos assombre a avantesma.
UB
Geringonça não é uma designação tão má como isso. É verdade que é “coisa mal feita, caranguejola, obra armada no ar”. Mas perguntem ao MacGyver e dêem-lhe um canivete suíço. A primeira máquina a vapor, a primeira lâmpada, o avião dos irmãos Wright podiam ser designadas como geringonças, mas as máquinas a vapor, as lâmpadas e os aviões que vieram a seguir já não eram geringonças. O governo minoritário do centro-esquerda do PS com a apoio parlamentar do BE e do PCP ainda é uma geringonça, mas quanto mais baixas forem as expectativas mais a geringonça se pode transformar numa máquina a sério. Ou talvez não.
Mas, o governo tombado na Assembleia não é uma geringonça, é já uma máquina a sério, com quase cinco anos de experiência, e é por isso que a continuidade da direita no poder foi sentida como sendo tão assustadora que conseguiu que o MacGyver invisível da esquerda, à pressa, construísse com o seu canivete suíço, a geringonça.
É que, para uma maioria dos portugueses, que votou “contra o governo” – insisto a única interpretação sólida dos 62% de votos –, ficarem lá “os mesmos”, seria o pior dos pecados e é essa força invisível e visível que permitiu a geringonça. É também por isso que o cimento da geringonça não está nos acordos, nos “papéis” como diz pejorativamente a direita, mas no que permitiu que eles se fizessem.
Vamos à avantesma. Os nossos dicionários são inequívocos “aparição de uma pessoa morta”, “pessoa ou objecto assustador, disforme ou demasiado grande”. Morto está, mas o Presidente da República ainda lhe permite que mexa, para ainda maior susto dos portugueses. Mete medo? Mete e ainda devia meter mais. Todo o processo da avantesma, o seu “conceito” como agora se diz, está bem explícito na história da devolução dos 35% da sobrecarga do IRS, que agora se verifica ser zero. Porque é que a história da devolução do IRS fantasma está na massa do sangue da avantesma? Porque foi isso que reiteradamente semana sim, semana sim, a coligação fez nestes últimos quatro anos e continua a fazer como quem respira.
É a mentira muito comum na esfera pública e política? É. Há uns especialistas na mentira que estão agora a contas com a justiça e que vinham do lado da geringonça. Mas isso não justifica o uso sistemático da mentira como mecanismo de governação, com a agravante de que uma comunicação social que nunca esteve tão perto do poder, em particular no chamado jornalismo económico, mas não só, dá uma amplificação enorme a estas mentiras. Transformaram-se naquilo que é o mais próximo que já alguma vez conhecemos, do “pensamento único”. E o “único” tem muita força, mas é do domínio dos “objectos disformes”, “demasiado grandes”, das avantesmas.
Denunciei várias vezes que se estava a criar artificialmente um panorama paradisíaco da situação económica portuguesa para efeitos eleitorais, e que iriamos ter um despertar abrupto depois do dia 4 de Outubro. Assim foi. Não o disse porque tinha qualquer varinha mágica ou informação privilegiada para o afirmar. Bastava somar dois e dois e verificar que não davam quatro e as coisas não encaixavam. A pergunta certa é por que razão não se fazia a soma a ver o que é que dava?
Mas a voz do governo e dos interesses que com ele se fundiam, funcionavam como um megafone ensurdecedor. Hoje, que se começa a perceber melhor qual era a verdadeira situação orçamental, os números preocupantes sobre a evolução da economia portuguesa, as prevenções do Banco de Portugal, o que está a acontecer com o Novo Banco e com a TAP, a censura dos números sobre a emigração, ainda vamos ver culpar retrospectivamente a esquerda pelos números negativos. Aliás, não é “vamos ver”, é “já vimos”, porque já vi o desplante de um jornalista da área económica de um grande jornal, dizer que a culpa destes números, no caso do IRS que fugiu, foi “das eleições”.

Pacheco Pereira, in Público

LIDO

OPINIÃO

As desventuras do dr. Cavaco

O dr. António Costa não se recomenda. Muito bem. Tarde ou cedo, nós trataremos dele, sem a ajuda vexatória e inútil do dr. Cavaco.
O dr. Cavaco tem tido um comportamento que se compreende com dificuldade. Foi à Madeira por causa de um “roteiro” qualquer, que não perdia nada em ser adiado. Consultou representantes do patronato e dos sindicatos, consultou os directores da banca e também um grupo de economistas, de autoridade pelo menos duvidosa, que não se percebe como foi escolhido. Ontem consultou os partidos e consta que se prepara para consultar o Conselho de Estado. Mais de 50 e tal peritos para o iluminarem, embora ele já soubesse tudo, como garantiu ao país, para o acalmar, antes de 4 de Outubro; e na Madeira não se coibisse de insinuar que os governos de gestão não eram assim tão maus. Ele – ele mesmo, o genial dr. Cavaco – dirigira um Governo desses em 1987, para maior felicidade dos portugueses, como é público e notório.
A Câmara Corporativa pessoal e aleatória que nestes dias passou por Belém parece substituir, para o Presidente da República, os representantes do povo que estão em S. Bento, no pleno uso dos seus poderes. Mas S. Exa não se incomoda. Seria interessante saber o que aprendeu com tanta conversa. Que devia conservar Passos Coelho, doesse a quem doesse, incluindo ao próprio Passos Coelho, para que não se metesse na cabeça da Guarda Vermelha ir assaltar o dr. Vítor Bento? Ou que devia indigitar Costa para formar Governo e deixar que a vida política democrática tal como existe em Portugal o limitasse e o substituísse? Ou ainda que impusesse a Costa as suas condições, para garantir que o país continuaria a andar a seu gosto ou que a aliança da esquerda acabaria antes de começar?
Como as bruxas (dos dois sexos, claro) voltaram a opinar por Portugal inteiro, não me repugna esclarecer o que perturba o espírito do outrora vidente dr. Cavaco Silva. Em primeiro lugar, com o tacto que o caracteriza, condenou liminarmente um Governo António Costa e o entendimento em que ele assentaria. Em segundo lugar, como uma grande quantidade de portugueses, detesta a personagem, a sua manha e a sua brutalidade. E, em terceiro lugar, duvida, e com razão, que o PS consiga conservar um mínimo de equilíbrio nas finanças, na economia e na frágil sociedade que nos deixaram 40 anos de incapacidade e corrupção. Talvez não se engane. Mas nada justifica que em 2015 arrisque cegamente o pouco que por enquanto continua em pé. O dr. António Costa não se recomenda. Muito bem. Tarde ou cedo, nós trataremos dele, sem a ajuda vexatória e inútil do dr. Cavaco.

In Público

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

LIDO - 2

O Governo de Passos e Portas tem vários ministros novos mas alguns deles estiveram envolvidos em casos judiciais antigos. É o caso de Fernando Negrão e a Universidade Moderna ou Costa Neves e o caso Portucale. Calvão da Silva atestou mais recentemente a idoneidade de Ricardo Salgado.
Comecemos por Fernando Negrão, novo ministro da Justiça. Juiz de círculo que passou por várias comarcas do interior até chegar ao Tribunal da Boa Hora onde fez parte do coletivo que julgou Costa Freire, ex-secretário de Estado da Saúde de Leonor Beleza no início dos anos 90, e José Beleza, irmão da ex-ministra da Saúde de Cavaco Silva, Negrão foi nomeado diretor nacional da Polícia Judiciária (PJ) entre 1995 e 1999. Era a época em que os casos judiciais terminavam com prescrições de gaveta e em que a investigação criminal era muito marcada pelo caso da Universidade Moderna onde se investigava suspeitas de gestão danosa da administração daquela instituição liderada pela família Braga Gonçalves misturadas com guerras maçónicas que tinham o filho do reitor, José Braga Gonçalves, como protagonista. Em suma: todos os jornais procuravam saber novidades do caso Moderna.
Estávamos em março de 1999. O Diário de Notícias (DN) avança com a notícia em primeira página de que vão ser realizadas buscas judiciais à Universidade Moderna.
A informação é desmentida, as buscas não se chegam a realizar-se e a jornalista que assina a notícia, com o apoio da direção editorial do DN, denuncia Fernando Negrão, então diretor nacional da PJ, como a fonte da notícia em conversas telefónicas com a jornalista Margarida Maria ocorridas a 5 e 9 de março de 1999 e ouvidas por dois membros da direção editorial do jornal.
Pressionado por Cunha Rodrigues, então procurador-geral da República, e por Vera Jardim, ministro da Justiça do governo de António Guterres que lhe retira a confiança política, Negrão é obrigado a demitir-se. Mas o problema não fica por ali.
Concentrado em fazer do caso Negrão um caso exemplar da luta contra a violação do segredo de justiça, Cunha Rodrigues empenha-se pessoalmente e ordena um inquérito rápido – a abertura da investigação era obrigatória por o crime ser público, isto é, o Ministério Público (MP) estava sempre obrigado a investigar como magistratura que zela pela legalidade. Negrão é acusado do crime de violação do segredo de justiça pelo MP com os testemunhos dos jornalistas do DN logo em 1999 e acusa Cunha Rodrigues de montar uma cabala conta si por profundas divergências sobre a lei orgânica da PJ e o modelo de investigação criminal.
Sendo juiz de círculo, do quadro do Tribunal Criminal de Setúbal, teve de ser um tribunal superior, a Relação de Lisboa, a analisar o requerimento de abertura de instrução criminal apresentado pelo advogado Proença de Carvalho. A desembargadora Margarida Blasco (mais tarde, diretora do Serviço de Informações e Segurança por indicação do primeiro-ministro Durão Barroso e atualmente inspetora-geral da Administração Interna por nomeação de Miguel Macedo em 2012) fica com o caso nas mãos, liderando as sessões de instrução que acabam por transformar-se num quase julgamento num das salas da Relação de Lisboa. Os jornalistas do DN mantém a sua versão, Fernando Negrão contesta e Margarida Blasco acaba por não pronunciar o atual ministro da Justiça a 31 de maio de 2000 por entender que não existia uma alta probabilidade de o mesmo ser condenado em julgamento. As versões contraditórias apresentadas e o facto de a desembargadora ter considerado as conversas ocorridas como privadas, foram decisivos para o arquivamento.
O MP ainda recorreu para o Supremo Tribunal de Justiça mas um ano mais tarde, em 2001, o caso ficou definitivamente encerrado. Eleito nas eleições legislativas antecipadas de 2002 para deputado nas listas do PSD e mais tarde ministro da Segurança Social do governo de Santana Lopes (2004/2005), Fernando Negrão voltou a ser considerado suspeito de um novo caso de violação de segredo de justiça relacionado com um inquérito da PJ do Algarve e com o seu ex-diretor nacional adjunto Sousa Martins mas o caso não teve os mesmos desenvolvimentos do caso da Moderna. Estava em causa uma investigação sobre a autoria de panfletos anónimos sobre o presidente da Câmara de Ourique, José Raúl dos Santos, do PSD.

Costa Neves e o caso Portucale

Damos agora um salto no tempo para o ano de 2005 – últimos dias do governo de Santana Lopes, primeiro-ministro que tentava discutir a vitória nas eleições legislativas antecipadas marcadas pelo Presidente Jorge Sampaio com José Sócrates, o novo líder do PS.
Pressionados por Abel Pinheiro, então diretor financeiro do CDS/PP e figura muito influente no partido de Paulo Portas, Nobre Guedes (ministro do Ambiente), Telmo Correia (ministro do Turismo) e Costa Neves (ministro da Agricultura) assinam um despacho a declarar o interesse pública da Herdade da Vargem Fresca, propriedade do Grupo Espírito Santo. Era o que bastava para ser viabilizar o abate 2.500 sobreiros e abrir o caminho à construção do projecto turístico da empresa Portucale.
O Departamento Central de Investigação e Ação Penal, contudo, tinha aberto um inquérito por suspeitas de trafico de influências e estava a ouvir todas as conversas e a seguir todos os passos dos protagonistas desse caso, com destaque para Abel Pinheiro e as respetivas suspeitas de financiamento partidário ilícito que recaíram sobre o CDS/PP – partido que tinha indicado dois dos três ministros envolvidos no caso.
Costa Neves foi constituído arguido em 2007 por suspeitas de tráfico de influências, dois anos após o início das investigações, mas acabou por não ser acusado no final do inquérito – Nobre Guedes tinha visto os indícios recolhidos contra si serem arquivados num despacho intercalar dado em 2006 e Telmo Correia nunca passou de testemunha.
Quando foi conhecida a notícia da sua constituição de arguido, e antes de ser conhecida a decisão do MP de arquivar o caso contra si, Costa Neves viu Carlos César, então presidente do governo regional dos Açores e hoje líder parlamentar do PS, elogiar-lhe a honestidade e sair em sua defesa. Mais tarde, no final do julgamento, Abel Pinheiro e os restantes arguidos foram igualmente absolvidos.

Calvão da Silva tentou ajudar Ricardo Salgado

O novo ministro da Administração Interna é um histórico do PSD, presidente do Conselho Jurisdição Nacional do partido, com uma longa carreira académica. Doutorado em Direito Civil e professor catedrático da Universidade Coimbra, Calvão da Silva acabou por ser protagonista de um episódio mediático do caso BES/GES revelado pelo jornal i. Contratado como juriconsulto por Ricardo Salgado para emitir um parecer jurídico que seria enviado para o Banco de Portugal, Calvão da Silva arriscou pronunciar-se sobre os 14 milhões de euros que o construtor José Guilherme transferiu para as contas de Ricardo Salgado que estiveram na origem de retificações fiscais que foram realizadas pelo líder da família Espírito Santo e que levaram, inclusive, o Ministério Público (MP) a pedir explicações em dezembro de 2013 ao líder da família Espírito Santo.
Afirma Calvão da Silva no parecer pago por Ricardo Salgado que tal prémio de 14 milhões de euros, que o ex-líder do BES classificou ao MP como uma “liberalidade” de José Guilherme por lhe ter dado bons conselhos imobiliários para investir em Angola, enquadra-se no “bom princípio geral de uma sociedade que quer ser uma comunidade – comum unidade –, com espírito de entreajuda e solidariedade”.
Calvão da Silva acrescenta ainda no referido parecer o seguinte:
A liberalidade foi por conselho dado a título pessoal, fora do exercício de funções e por causa das funções de administrador bancário, não se vê por que razão censurar a sua aceitação, muito menos que possa constituir fator relevante na decisão de registo sob o prisma da idoneidade necessária a uma gestão sã e prudente da instituição de crédito”.
Isto é, o futuro ministro da Administração Interna não viu nenhum problema no facto de um presidente executivo de um banco ter recebido 14 milhões de euros de um cliente, como também não considerou incompatível por parte de Ricardo Salgado o exercício de funções de consultor em Angola para um cliente de um banco angolano que era detido maioritariamente pelo BES e que o próprio Salgado acompanhava de perto.
Este parecer de João Calvão da Silva tornou-se relevante depois de Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, ter citado o mesmo para justificar a sua decisão de ter mantido a idoneidade de Ricardo Salgado depois do jornal i ter noticiado as retificações fiscais feitas por Ricardo Salgado devido à sua atividade declarada como consultor com rendimentos obtidos em Angola.


Jornal online Observador


O Zé Manel Fernandes terá  mudado a linha editorial do Observador?

LIDO




É tempo de algumas franjas da população se reverem em quem está no Govern

F(*)... recusa "entrar na dramatização" de haver um Governo PS com o apoio do PCP e Bloco





"Estamos em democracia há 40 anos. Já e tempo de nos consciencializarmos por uma democracia adulta. As pessoas votaram." Para F... "a última coisa” que lhe passa pela cabeça “é criticar a forma como as pessoas votaram". “Há uns de nós que estão mais contentes e outros menos. É a vida. E a democracia", acrescentou, após ter sido questionado em conferência de imprensa sobre os resultados das legislativas e a hipótese de um Governo de esquerda que ligue o PS ao PCP e ao Bloco de Esquerda.  
F... recusou "entrar na dramatização" e adiantou "que o paralelismo entre Cuba e Portugal é os dois terem praias bonitas" . Uma observação que resulta de uma declaração do presidente da Associação Portuguesa de Bancos, Faria de Oliveira, de que Portugal se está a transformar na Cuba da Europa. O presidente executivo do XYZ salientou que "é tempo de algumas franjas da população se reverem em quem está no Governo”. “Espero que haja mais entendimento ", frisou.

Público online

Quem disse? Nem mais nem menos do que Fernando Ulrich, presidente do BPI. Quem haveria de dizer?