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terça-feira, 24 de setembro de 2013

CONTRIBUTOS EXTERNOS



Aqui vai mais uma crónica do meu Amigo Zé Gil



AQUI – D’EL – REI
                                                                                   Gil Monteiro*

Serão os efeitos da crise económica que fazem lembrar os tempos idos?! Magia não é.
Quando, à lareia, após a ceia, se ouvia o vento zoar nas telhas e chaminé, levava a avó Ana, tratada, carinhosamente, por mãezinha, a interromper os seus contos e ditos, pelo fumo e choinas saídos da entrada para a chaminé; o serão parecia um filme com efeitos especiais!
Foi à volta do lar que ouvi, à luz mortiça do candeeiro, com os ruídos noturnos de uma casa de lavoura, e do chiqueiro dos porcos por perto, que ouvi arrepiado contar “A Esperteza da Velha”! Cheguei a sair do colo do pai a fim de ir à porta das escadas ver se o povo chegava para apanhar o ladrão, escondido debaixo da cama! Jamais voltei a ouvir tais pedidos de socorro...
É preciso chegar ao século XXI e quase a ter bisnetos, e assistir a uma crise económica forte no nosso Portugal, para lembrar, novamente, um “aqui – d’el – rei”!
A rua onde moro, em Paranhos (Porto), talvez por ser nova, larga e bem iluminada, os assaltos, e roubos nos carros estacionados, são poucos, e até um camião TIR pernoitava em fim-de-semana...
Quem tem uma cadelinha para passear na rua, e zonas verdes, notou a ausência do TIR parado.
 – As baterias eram roubadas! – informou a Estrela, companheira nos passeios caninos.
Ao encontrar o Sr. Orlando, enquanto seu cão, velhinho e pesadote, aproveitava para se sentar no passeio, informou:
 – Aqui na rua, começaram os roubos das baterias dos carros estacionados ao relento, e o rebentar, e levar, os pequenos portões do passeio, antes dos jardins de entrada?!
Fui ver. Era incrível!
Necessário se torna dizer: a mesma rua faz um ângulo reto (?) e nas moradias, onde mora o Sr. Orlando, é mais estreita e atafulhada de carros nos passeios – mais furtos, portanto.
Tenho o privilégio de ter por perto as matas da quinta do Covelo e, ainda, alguns terrenos agrícolas, onde os milheirais e os nabais se renovam (este ano poucos). Têm toscos muros, para os passeios da rua, protetores da invasão dos campos, e são recobertos de capas de cimento. E o que vi?! Destruídas a cinzel para roubar as varinhas de ferro de muro rematado!

 – Isto é que vai uma roubalheira – afirmou o Armando, habituado a guardar a chave da sua casa duriense, em buraco da parede, quando era pequenito, e pessoas a pedirem licença de entrada, no fundo das escadas granítico-xistosas, para subirem até à porta; e, agora, ser assediado pelos vendedores de novas tecnologias, na entrada do seu andar!
Estava longe de vir a encontrar o Afonso, discípulo de outros tempos. A conversa foi apetitosa, mesmo no passeio de rua! Quando chegou à desgraça de ouvir que andava à procura de emprego, antes de ter que emigrar, pois a carpintaria, onde trabalhava faliu, dei-lhe um abraço, e entrei no carro triste. Antes de arrancar, o Afonso vem ao automóvel e diz:
– Tem uma moedinha?
 – AQUI – D’EL – REI?! Tirem-me deste filme!...

Porto, 4 de setembro de 2013

                                                                                 *José Gil Correia Monteiro

                                                                                jose.gcmonteiro@gmail.com

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

ESTÓRIAS DO ZÉ GIL

Aí vai mais uma das estórias do Zé Gil


AS HORTAS
                                                                         Gil Monteiro*  

Na aldeia transmontana, deixava de ser pobre, pobre, quem tinha uma hortinha! “Sempre tinha onde poder colher umas couves” – dizia a Maria do Viúvo, quando a Joaquina morreu, e foi necessário a junta de freguesia ofertar o caixão, para ir ocupar os sete palmos de terra no cemitério de S. Martinho.
O misticismo de ter uma horta era tal, afastando o fantasma da pobreza, de andar de porta a porta e de aldeia a aldeia a esmolar, que Roalde era rodeado por pequenos agros, mais pequenos que a loja dos bois! Entre esses quintais, utilizados nas brincadeiras de rapaz, um era ocupado por uma única macieira frondosa! Serviu de “Meu Pé de Laranja Lima”, como tão bem escreveu, o escritor brasileiro, José Mauro de Vasconcelos, de ascendência transmontana.
As nogueiras davam um “ar fresco “ nas tardes de canícula e as variedades de ameixas faziam a pequenada sorrir e davam coragem para os banhos nas poças da Tenaria, desocupadas dos molhos de linho, a serem macerados e espadeirados, nas bancadas graníticas do Peitoril. Só o tio Brás, artista de fazer estrelejar foguetes, na festa bianual, e tocador de concertina, transformou os seus dois quintais em jardins! Ver lindas rosas, alecrins, açucenas, e cabaceiras, era um assombro! Só na feira de S. Martinho ou no jardim da Carreira de Vila Real, se podia ver semelhante. Mais: nunca o rapazio tratou mal as plantas do tio Brás, apesar de ele morar no fundo do povo, e nem sempre estar por perto. Por ter acesso livre, e por aprender muito com o hortelão, sentia-me um privilegiado. Quando a Amélia do Carumba, munida de escada, convida os garotos crescidos, para apanhar os abrunhos, em planta alta e esguia, na pequenita hortinha, nas traseiras de minha casa, fiquei perplexo: oferta de todos os frutos a toda a gente; e deixava de os ter à disposição, pela janela de minha casa, apanhados das copas mais altas!
Era um vício tirar essas ameixas, rainha Cláudia, doces e apetitosas da Sr.ª Amélia, pois a casa também tinha uma latada de uma grande videira, que nunca era vindimada, tendo sido habituado a ir colhendo os cachos, pela janela da rua, em competição com abelhas de deixarem ficar apenas a pele aos bagos.
Fomos criados para viver em vida rural. O êxodo para as cidades está a acabar. Vai começar outro ciclo: voltar às origens...
É na Baixa Portuense que podemos ver bonitos quintais, e bem tratados, nos prédios não abandonados. De comboio de S. Bento para Campanhã, nos intervalos dos túneis, tirando os olhos do lixo, junto às linhas (agora menos), vemos hortas, onde as laranjeiras, limoeiros e couves-galegas, altas, parecem dizer adeus, ou bater palmas ao ritmo do trem, trem, da linha férrea!
Foi um Almada que, pretendendo por a cidade em melhor contacto com o norte, mandou abrir a rua de Costa Cabral, vendendo talhões de terrenos para construções, próprios para casas e quintais; obrigava a abrir poços de abastecimento e rega, individuais ou meeiros, entre parcelas contíguas. Algumas hortas sobreviveram e têm árvores, onde os pássaros nidificam! Os galinheiros e coelheiras foram morrendo, conforme os supermercados passaram a vender pernas de frango! A propriedade horizontal decretou a extinção do uso. Retalhados pelos donos dos andares dos novos prédios? Mas, devido à crise, começam agora a verdejar...
Chegou o tempo do regresso às origens?!
Os novos empreendedores agrícolas, a rumarem para as aldeias e quintas ou herdades, vão fazer o renovado Portugal. Até os burricos transmontanos, em vias de extinção, já agradecem ao Criador!

Porto, 29 de julho 2013

                                                                                      *José Gil Correia Monteiro

                                                                                     jose.gcmonteiro@gmail.com

quarta-feira, 10 de julho de 2013

ESTÓRIAS DO ZÉ GIL

PASSARADA
                                                                                                      Gil Monteiro*

Em tempo de crise, tudo muda para pior. Falo nas condições do meio ambiente, pois nas organizações sociais os mais desprotegidos são os mais vulneráveis a pagar os insucessos.
Jamais pensaria que a grande crise económica, que assola Portugal, a Europa e, diria, o Planeta, fosse interferir tanto nas aves do Céu! Como as condições climáticas do norte do globo se alteraram muito, os bandos de estorninhos e tordos começaram a arribar ao Douro mais cedo, ainda com as oliveiras a florir e os cereais sem sementes! Esperamos que as levas de tordos, a dizimarem a azeitona dos olivais, este ano não se verifiquem. As cerejas já pagaram as favas!...
Ir a Soutelo do Douro às cerejas temporãs e alertado para invasão dos pássaros, pensava, mesmo assim, em matar o desougo, e ofertar outras aos amigos do Porto. Qual quê?! Apenas comi uma, camuflada entre abundante folhagem. A Maria Fernanda só verificou a razia e o solo “estrumado” de caroços dos frutos, e outros pendurados, ligados pelos pedúnculos na árvore!
O Carlos elucidou:
 – Tentei cobrir uma cerejeira com lonas da azeitona mas, em três dias, a folhagem começou a amarelar. Portanto, era preciso estar alguém a guardar as cerejas. A fome da passarada era tanta que nem respeitaram os espantalhos! O Barrosas chegou a ir para o Cortinhal dar tiros aos estorninhos, mas, ao mandar chumbos para uma cerejeira, outra era atacada... Desistiu!
Os tempos têm sido tão pródigos para as aves que os ninhos, encontrados na quinta, são muitos. Sim: gosto de os procurar e observar, sem chegar muito por perto ou perturbar. Mas, não contava que, em cedros plantados, aquando do nascimento dos meus filhos, acolhiam vários ninhos, de pintassilgo, melro e rola (dita asiática). Um, perto das escadas da cozinha, as pessoas passavam e a ave continuava tranquila no choco!... Se há árvores próprias para ninhos são as oliveiras. Por ter visto um gaio – caso raro, agora – bem procurei o ninho, mesmo nas grandes, mas sem sorte!
Em Roalde, os gaios eram os salteadores do milho temporão nas terras mais secas. Rasgavam as espigas e comiam os grãos ainda mal formados. Pela mão da avó materna, viúva a viver na nossa casa e apelidada de Mãezinha, assisti à colocação de espantalhos no milheiral da leira da Fonte do Monte, pois no lameiro, junto ao ribeiro, o milho mal espigava. Bonitos eram os bonecos espetados, em paus espalhados pelo campo e outros escondidos, entre as plantas, como se fosse o dono do campo a sachar, mas, mesmo assim, o investir não parava! A própria presença da Mãezinha não sortia efeito, era preciso bater em latas para fugirem em direção às matas próximas.
No ano seguinte, ajudado pelo paquete dos bois, Zé Pelado de Fermentões, e tendo observado o aparelho feito pelo Ernesto Nijo, construí uma taramela, para afugentar os gaios do milho, e dar descanso à avó, pois a leira ficava longe do pequeno povoado.
Lembro bem do fundo da lata, onde as duas bolas de chumbo batiam, acionadas pelo eixo do pára-vento, e da estaca bem alta, onde foi colocada entre espigas. O vento era muito e constante.
O tempo do milho temporão da Fonte do Monte, e como não tinha idade de ir para a Escola, era dedicado à aprendizagem da natureza. Passava horas, não sei se a ver a minha tramela a funcionar ou a ver os lindos gaios. Andar aos ninhos era outro negócio!...



Porto, 20 de junho de 2013

                                                                                  *José Gil Correia Monteiro

                                                                                       jose.gcmonteiro@gmail.com





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segunda-feira, 27 de maio de 2013

ESTÓRIAS DO ZÉ GIL

GUARDA – SOL
                                                                                                   

O guarda-sol será uma espécie de guarda-chuva?!
No conceito de menino só podia dar no mesmo, pois desconhecia outros modos, ou outros usos, de proteger a cabeça do sol, na falta de chapéu ou lenço. Mais: os “artistas”, do tipo latoeiro, em digressão pela aldeia, eram designados por compõe louças e guarda- sois e não guarda-chuvas! Montava a “oficina” no largo, em frente da minha casa, depois de se fazer anunciado na única rua, do fundo ao cimo do povo, batendo as orelhas de um martelo no fundo duma velha sertã. As matracas da Semana Santa não conseguiam convocar tanta catraiada! Quando começava a trabalhar, ficava rodeado de mirones, e de olhos vivaços da pequenada! Os ensinamentos para aulas práticas não podiam ser mais eficientes por professor efetivo. Ainda, hoje, seria capaz de unir uma tijela partida, aplicando uns “gatos” de arame! ...
 – António, vai levar o guarda-chuva ao guarda-soleiro, para por uma vara nova – dizia a Elisa para o filho, ainda sem idade de frequentar a Escola.
O António só conhecia o arrieiro a desmontar a avó da Magalhã, da cadeirinha da égua baia, protegida dos raios solares de junho, pelo guarda-chuva (sol) até entrar para a casa de visita. Nunca vira uma praia! Só o Sr. Ferreira e o Sr. Professor Antunes iam para as termas do Vidago. Os chapéus de palha, comprados pelo Santo António, protegiam do sol toda a gente, até os malhadores do centeio nas eiras.
Tantos anos a residir no Porto e nunca tinha visto, domingo de manhã, ao ir comprar o jornal, dois guarda-chuvas abertos a secarem na varanda de um andar do bairro! Como tempo tem sido muito invernoso, é preciso poupar o pano do bolor. Raramente, se ouve a gaita do amolador de tesouras e navalhas (facas), a passar pelas ruas. Mas mais adiante, encontrei um stande de automóveis ao ar livre, com os carros todos de capô e malas abertos para secarem.
No tempo de crise os roubos, os crimes, enfim, todo o mal social aumenta. Diria: sofre mais o pobre e há menos tranquilidade para o remediado ou rico.
 Passaram longas décadas, desde o tempo de a Joaquina ter ido para Paris fazer uma tese de mestrado. Os colegas, sem direito a essa regalia de complemento de instrução, resolveram ir visitá-la e conhecer a cidade Luz. Quando à noite passeavam, pela Concórdia e Pontes sobre o Sena, um ladrão de esticão, rouba a carteira à Joaquina! Perplexos, todos gritam e correm atrás do gatuno, enquanto a estimada amiga ria, ria!...
 – A carteira era velha, só continha papéis... Já era para ser furtada!
Recordei o acontecimento, quando na bonita cidade do Porto, com Pontes Modernas de nível mundial, me roubaram, na semana passada, um guarda-chuva baratucho e velho. Andava com ele no carro, servindo para uma emergência, o que se veio a verificar na rua de Costa Cabral. Necessitando de dar um recado breve ao João, a trabalhar numa sala de um rés-do-chão elevado, e como tinha de usar um truque, a fim de manter o guarda-chuva aberto, não o fechei, e meti-o dentro da porta aberta para a rua, subindo os poucos degraus. Nem um minuto demorou. O guarda-chuva foi roubado!
 Apanhei uns pingos de água até ao carro, mal estacionado, e sorri:
 O guarda-chuva já foi deitado ao lixo pelo ladrão!


Porto, 15 de maio de 2013

                                                                                   José Gil Correia Monteiro

                                                                                 jose.gcmonteiro@gmail.com 

segunda-feira, 25 de março de 2013

CRÓNICAS DO ZÉ GIL

MARÃO




Gil Monteiro*



“ Marão não dá palha nem dá grão”, era o que mais ouvia nas brincadeiras e expressões de miúdo. A palavra enchia tanto a boca, na prenúncia, que tinha de se referir a algo muito grande!

Foi necessário o Sr. Prior de S. Martinho de Anta dar aulas de catequese, na capela da Nossa Senhora da Azinheira para, do alto serra, poder observar as montanhas do Marão! Os tempos livres, durante a aprendizagem da doutrina, eram passados na serrania, quase desprovida de árvores, excepto os famosos castanheiros ao redor da capela. Enquanto jogávamos às escondidas, entre penedos, procurávamos grutas e achados megalíticos (antas), e vejo o Fernando, de mão a fazer de pala na testa, a dizer:

– São lindos os montes do Marão!

– Para lá daqueles lados fica o Porto...

Um agricultor, sem olivais ou vinhas no Douro, tratava a primor as pequenas leiras ou lameiros, soutos ou pinhais e cuidava de parcelas de montes, de onde retirava lenha e mato, para as cortes dos animais, e estrume para os campos. O direito de limpar os terrenos, não usados na agricultura, era lucrativo e, por vezes, comprado por vizinhos ou outros lavradores.

Entre os vários prazeres do agricultor, há um que lhe é muito grato: mostrar as suas propriedades aos amigos interessados nas fainas campestres. E, quando ouve um piropo, do tipo: – O seu lameiro da Fonte é muito grande, é um Marão! A sua alma vai ao Céu (!) e quando, na adega oferecer vinho da pipa, ainda “ sonha” que está a ofertar o néctar dos deuses, em terras sagradas!

Só no tempo de frequentar o liceu, em Vila Real, é que palmilhei o Marão. Se nevava pela manhã, à saída das aulas a Foto Marius já apresentava fotografias, na montra da rua Central, e à tarde íamos, pela estrada da Campeã, ver o manto branco!

Tive a sorte de ter bons professores do ensino liceal, o melhor de todos foi o Dr. Catarino Nunes. Lembro o Dr. Godinho, a leccionar biologia e geologia, fazendo um ensino integrado no meio local.

S e os recursos mineralógicos das serras do Alvão (agora mais publicitada) e Marão foram objeto de estudo, principalmente as magnetites, o revestimento vegetal não foi esquecido; os fornos da Boavista e as” pelas” foram bem observadas.

Quem diria, anos idos, que o quartzo da serra passou a dar mais divisas a Portugal, e por ano, do que o vinho do Porto exportado! Falo dos áureos tempos da laboração da fábrica de silício de Bagauste (Régua),no tempo em que tínhamos energia barata e abundante das barragens do Douro. O polo de fabrico de silício passou para o Brasil, onde havia turbinas elétricas inativas, por falta de consumo energético!

Um dia, o Dr. Godinho pôs os alunos à prova:

– Por que motivo a serra virada para Vila Real é nua e do lado da Pousada tem muito arvoredo?!

Matutando, matutando, um discípulo, lá descobriu o mistério.

– Do lado do Porto os ventos são húmidos, subindo as montanhas perderam o vapor de água, logo...

Hoje o princípio não é tão verdadeiro, pois há a florestação científica, que conseguiu inverter os dados.

As encostas da Campeã têm terrenos “virgens”, muito humosos e produtivos. Alguns, já foram utilizados na produção de batata, tipo Montalegre. Os resultados foram muito bons, principalmente no uso dos tubérculos para replantar noutros locais transmontanos ou durienses.





Porto, 1 de março de 2013



*José Gil Correia Monteiro

jose.gcmonteiro@gmail.com

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

ESTÓRIAS DO ZÉ GIL

QUADRAS FESTIVAS




Gil Monteiro*



O mundo rural, e mesmo o citadino, vivia muito os acontecimentos relevantes ao longo do ano. Do género: “No Santo António (festas da cidade de Vila Real) hei-de comprar um cuco” – ocarina de barro pintado, que cheia de água, imitava o gorjeio dos pássaros; na romaria dos Remédios, vamos comprar bons melões; é preciso por mato (giestas e fetos) na rua enlameada, pois o Carnaval está à porta, e a canalhada precisa de brincar! Mas, eram as festas e romarias as datas mais marcantes. Até a pequenada ia amealhando uns tostões para, no meio da poeirada do bailarico da festa anual, poder comprar raminhos coloridos, com rebuçados dentro, e garrafinhas de refresco de limão ou, quando o dinheiro dava, os pirolitos!

As cavas e redras das vinhas acabavam pela Senhora da Ribeira, passando o pessoal a cumprir manhãs e tardes, com descanso nas horas de canícula ou a dormir a sesta. No tempo das malhadas, aparecia o bago pinto e os figos lampos, nos socalcos junto ao rio douro ou pinhão. Os momentos das vindimas iam chegar. Os familiares lisboetas ou portuenses viriam passar uns dias de férias (ainda não se falava em emigrantes, muito menos em turistas).

A quadra mais requerida era a do Natal! Não só os difíceis trabalhos agrícolas, podas e apanha da azeitona terminavam, como iam voltar as doçarias e os brinquedos! A confraternização dos jogos do rapa, dos confeitos e do pião estavam perto. Mas, o mais importante era o armar do presépio, na capela (grande) do local! Todos colaboravam na obra – novos, velhos, meninos e meninas. Ao colher musgo numa parede, despertei a hibernação de uma lagartixa!

Nem sempre havia uma fornada de pão na aldeia, no dia de representar os caminhos de Belém com a farinha. A Ana do forno oferecia os restos da gamela. As figuras bíblicas e rurais eram desempacotadas e complementadas, com outras adquiridas no bazar dos Três Vinténs de Vila Real.

Havia um ponto discutível: onde colocar, nos caminhos entre montes, os Reis Magos, pois só no dia de Reis chegavam à gruta do Menino Jesus?! Mais: como tinham de ir caminhando, eram mudados de posição!

Em terra fria transmontana, metia dó ver o Deus Menino apenas de fralda e rodeado de palhinhas centeias. Mas, na missa de Ano Novo, já estava tapado e resguardado da friagem do lajedo da Capela!

O Sr. Prior dava a beijar, desde o Natal aos Reis, diferentes figuras do Menino. Em Janeiro, tinha saial branco e ficava de pé na pedra de ara. Como cresceu tanto?!

A minha simpatia ia para o boneco de um pastor, a transportar ao ombro um cordeiro – lembrava o Sr. João de ceifões, vindo da Serra da Estrela, com as ovelhas em transumância e cães de coleira de pregos!

É curioso:

A maioria das festividades vão perdendo interesse ou mudando para outras. Os concertos musicais são um exemplo, ainda que as antigas bandas de música toquem nos coretos e acompanhem a procissão. A época natalícia vai-se alargando, e, os presépios, mesmo ao vivo, são cada vez mais numerosos, batendo a concorrência das bugigangas chinesas e os pinheirinhos enfeitados. Em novembro já há enfeites natalícios!

A Páscoa é e será sempre a Páscoa. O Domingo de Ramos, com os ramos de alecrim e hastes de oliveira, e a visita do compasso, renovam o tempo. Os campos floridos fazem pensar na Mãe Natureza.





Porto, 16 de janeiro de 2013







*José Gil Correia Monteiro

jose.gcmonteiro@gmail.com

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

ESTÓRIAS DO ZÉ GIL

Aí vai uma crónica interessante do Zé Gil


ANIMAIS CITADINOS



Gil Monteiro*



“Quem estima os animais tem bom coração”, dizia a Maria Lara para a prima, quando a visitou, e viu a cadelinha híbrida de reconhecidas raças. Tinha sido recolhida na movimentada rua de Costa Cabral, abandonada e quase a ser atropelada.

O coração não é mais que o órgão, agora estudado como um aparelho propulsor da atividade, deve ter células benemerentes que levam a gostar e acarinhar os seres vivos. Portanto, os rurais mudados para a urbe, se pudessem, levariam as ovelhas! Mesmo os cães e os gatos nem sempre são aceites pelos condomínios. Mas, pequena vingança, enchem as varandas ou sacadas e escadas com plantas, e mais plantas, por vezes pequenas árvores de fruto! Moderno, moderno, são os andares com terraços ajardinados, onde oliveiras velhas do Douro passaram a frutificar! Mais: dá gosto observar a antiga Praça Lisboa (Clérigos) transformada em olival relvado, com lojas novas por baixo do prado!

Explorando os campos de Paranhos, ainda podemos ver atividades agrícolas e alguns animais domésticos. O cantar do galo madrugador vai-se ouvindo. Propriedades rurais, escondidas entre prédios novos, ainda se encontram. Metem dó as antigas latadas abandonadas serem invadidas pelas silvas. As amoras têm melhor paladar que as uvas dos raquíticos cachos. Os muros, em perpianho de granito tosco, limitavam velhas habitações, as hortas e o poço. Devido à abundante camada freática do Porto, as residências eram obrigadas a terem poços de água, pois os fontanários eram poucos, e não havia água canalizada.

Pessoa amiga herdou uma dessas casas antigas e anexos, “perdida” entre as urbanizações da avenida Fernão de Magalhães e Costa Cabral, perto da Areosa. Fez as obras de adaptação, com uma condição: conservar o muro alto de granito, que separava a residência da única rua lateral. Criou um paraíso, transformado em inferno. Como das janelas de casa não se vê, e a rua tem pouco movimento, os carros param, e são atirados gatos e cães rejeitados para o jardim! Está farta de oferecer animais, e correr para os serviços de veterinária.

No Porto existem poucos cães vadios, já gatos são muitos, por terem maior poder de sobrevivência: não passeiam nas ruas, caçam bicharada, e até pombas; têm refúgio nos arbustos dos campos abandonados, e não são apanhados, pois metem-se por baixo dos carros estacionados. Alguns vivem e procriam nas garagens, e aproveitam as aberturas da porta para, pacatamente, fazerem os seus passeios ao ar livre. O tempo das portas das lojas terem um buraco, para entrada e saída dos gatos, já lá vai!

Como na minha rua há uma escola secundária, com zonas verdes arborizadas, à volta dos pavilhões e dos campos recreativos, é um alfobre de gataria. Suponho que o carinho dos alunos, professores e funcionários, mais os restos das merendas, são responsáveis pela existência.

Mas, há senhoras muito ternurentas para os gatos vadios, talvez por não terem condições de os albergar, formaram uma comissão de tratamento dos gatos vagabundos da rua e arredores, cuidando:

A alimentação diária, e escondida da cobiça das gaivotas e pombas, contagem ou identificação;

Apanhar, e ir ao veterinário castrar as gatas ou outros tratamentos.

A hospedaria é tão boa que um gato persa agarrado, entregue ao dono, voltou para a liberdade!



Porto, 3 de outubro de 2012





*José Gil Correia Monteiro

Jose.gcmonteiro@gmail.com

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

CRÓNICAS DO ZÉ GIL

Regressando, devagarinho, que estou cansado com as festas e romarias de Agosto, aí vai uma crónica do Zé Gil, que tem andado meio mudo (é das festas!).



CIDADELA DE CASCAIS


Gil Monteiro*



Ouvir falar de Lisboa era como sonhar com um reino de fadas, onde uma grande urbe era local de adoração, não por duendes, em nuvens de linho fofo de roca de fiar, mas por figuras angelicais espelhadas nas águas do tejo. Como acontecia com o andor de Nª Senhora da Azinheira, percorrendo a serra, a caminho do largo do Eiró de S. Martinho. A música e os foguetes, e os andores coloridos e brilhantes, faziam pensar numa Lisboa sempre em festa, como se ouvia, pelos ceguinhos, cantar as suas marchas e os fados de Amália!

Pelos anos 50, houve migração de famílias de Roalde para Lisboa. O Zé Rocha, único residente que recebia um jornal, pois nem um rádio de bateria havia no local, informou:

– É devido às construções de bairros novos...

Assim, no tempo da vindima e férias, podia a ver, novamente, o Manel Paleiro ou Tonho da Soqueira, e perguntar:

– Como era Lisboa? Havia muitos carros de bois?!

– Muitas casas, muitas ruas, muitos automóveis, muitos comboios, campos da bola... – Dizia o Paleiro, enquanto apanhava agriões, (1º e único), no ribeiro!

– As ruas grandes chegam daqui a S. Martinho? – Mais: chegavam a Sabrosa!!

Foi necessário passar meses a cumprir serviço militar, na Cidadela de Cascais, para conhecer os becos lisboetas do bairro da Bica, o museu das Janelas Verdes, o palácio do Ramalhete (Eça), a casa de fados Nau Catrineta, em Alfama, e subir às sete colinas. Resultado: passei a gostar e admirar a urbe, mas em estadias curtas, e sempre a pensar no regresso à Invicta, e na autoestrada, depois de Fátima, sentimos já o Porto!

Acontecimentos familiares levaram a passar um fim-de-semana na Capital, e desperto pela publicidade, ao aproveitamento turístico da Cidadela de Cascais, fui ver...

Na tarde de calmaria do mês de agosto, instalado no carro de uma sobrinha, deu para observar, com olhos de ver, a linda marginal Lisboa - Cascais. O movimento era muito, e as praias regurgitavam de jovens e crianças. Os carrinhos de bebé tinham de fazer gincanas, entre os parques de automóveis saturados. Os brilhos suaves das águas do Mar da Palha resplendiam nos edifícios, palacetes e fortes militares. O espetáculo deliciava o corpo e a alma. Não havia sinal da crise!

A visita à Boca do Inferno e ao Guincho e, perdido, na Quinta da Marinha, não sobrou o tempo para a Cidadela. Mas, só o portão de entrada, antiga Porta de Armas, despertou os anticorpos dos “estragos” feitos pelo curso de Cadetes, aí feito. A vontade de recordar a estadia era pouca. Apenas um apontamento:

Preparado para passar um sábado e domingo, em Lisboa, sou chamado ao capitão, conhecido como o “assassino da voz meiga”, que disse:

– Vai fazer os cálculos de tiro aéreo, este fim-de-semana, para os fogos reais da Bateria, a realizar na praia Guincho.

“Derreado” com o papel dos dados matemáticos, tendo a solidariedade de colegas, à morosa e complicada tarefa, e com tabelas trigonométricas, consegui, depois de almoço de sábado, entregar os cálculos ao dito oficial, retido no quartel, em serviço de escala.

Ainda não tinha poisado as folhas dos cálculos, na sua mesa, ouvi o voz meiga dizer:

– Ó cinco, (era o cadete n.º 5) estava para o mandar chamar! As coordenadas dadas estavam erradas, com elas, ia abater os aviões de passagem para Lisboa!



Porto, 29 de agosto de 2012



*José Gil Correia Monteiro

jose.gcmonteiro@gmail.com

sexta-feira, 29 de junho de 2012

ESTÓRIAS DO ZÉ GIL



FEIRA DOS PUCARINHOS



Gil Monteiro*



Sempre tive fascínio pelas feiras. Seria devido às feiras de S. Martinho de Anta? Vividas de Roalde, enquanto a força das pernas não deram para ir ao Largo do Eiró, na companhia dos familiares. Eram dias de ansiedade na espera do regresso dos pais, pois as compras continham sempre um regalo, que fosse o doce da Teixeira ou um pião das nicas! Na entrega de roupas barafustava em todo o tempo, e tinha de ouvir:


– Estás a crescer, daqui a dias está na medida!


Grande feira anual era a de Santo António de Vila Real. Passava dias a assistir e a ver os passantes a caminho da Vila. Era um corrupio de gentes e bens. Os que passavam a cavalo, muares e burros, ou em carros de bois, mostravam os animais ajaezados como fossem para romaria. Daí, se ouvir dizer: “vamos pr’as Festas de Santo António” ou ”vimos da Feira de Vila Real”.


Miúdos e crescidos iam contando os dias para o grande Festa Anual. A impaciência começava ao ver os peregrinos a passar, e os preparativos dos pais e amigos. As vestimentas novas e os brinquedos iam chegar! Os catitas chapéus de palha estavam prestes a proteger a cabeça do Sol forte!


Os cucos (ocarinas) e flautas de barro; as cornetas, cavalinhos e carrinhos de lata colorida; a pombinha de bater asas e a roda de ciclista, a bater os raios, eram recebidos e logo exibidos, nas escadas da Capela, para os amigos.


A mesa grande da sala servia de montra das compras à chegada. Depois, eram as entregas às irmãs (os) e Avó, ao redor das ambicionadas prendas. A distribuição não era fácil: o quinhão de um era melhor que o outro, e as ofertas surpreendiam bem ou mal. O apaziguamento, por vezes, estava nas trocas.


O consolo das disputas era ir à rua mostrar aos parceiros os brinquedos – era a reinação!


O S. Pedro ainda estava para chegar... As prendas seriam outras, compradas no Bazar dos Três Vinténs e acompanhavam a aquisição das louças de barro preto de Bisalhães (vasos, púcaros, alguidares do arroz de forno, infusas para o vinho, chocolateiras... e, esquisito (!), potes esburacados para tostar as castanhas à lareira, depois de cozidas). Surpreendiam as infusas, por lembrarem o vinho novo, e os assadores, por recordar as castanhas.


Só nos anos de exame tinha a sorte de passar as Festas de S. Pedro em Vila Real, e participar nos jogos de panelas. O largo da Igreja Nova era um mar de variadas louças de barro de Bisalhães. As donas de casa compravam, desde a bilha até às peças de arte decorativa; e os moços e moças as panelas de refugo, a serem jogadas na avenida. Os aselhas, pelas partidas, eram “obrigados” a comprar outras! A brincadeira ia noite dentro, mesmo depois da audição do concerto da Música de Mateus, nas escadas da Câmara ou na Verbena do Jardim da Carreira, e dos foguetes de lágrimas.


Só durante os anos do liceu do 2º, 5º e 7º (anos de exame) podia estar presente na Feira dos Pucarinhos, pois terminadas as aulas era Roalde à vista!


A realização da prova escrita de Matemática foi no dia do arraial de S. Pedro. Foi uma tragédia! Por terem sido mudados os tipos de exercícios, andou tudo aos papéis!


A malta fez um “corridinho” pela cidade, de panelas ao alto, cantando:


– Haja alegria, animação.


O ponto de Matemática


Não mete aflição!


S. Pedro providenciou. Houve nova prova escrita a nível Nacional!



Porto, 1 de Julho de 2011



*José Gil Correia Monteiro

Jose.gcmonteiro@gmail.com

quinta-feira, 3 de maio de 2012

"O MEDO", DO ZÉ GIL

O MEDO







É preciso não escrever com medo. Qualquer trabalho deve passar por avaliação e crítica. Quando tal não acontece, o autor, que faz sempre autocrítica, é mais severo na análise e correção dos assuntos redigidos. Ao grande poeta contista, Miguel Torga, ouvi-o dizer:


– Uma frase pode levar uma tarde para ficar com a melhor forma.


Se as críticas positivas podem despertar o ego, as negativas ficam mais persistentes na elaboração de novos trabalhos, e contribuem para a evolução e eficiência da escrita; “se as houver”, diria Natália Correia.


As ligeiras observações são, por vezes, as de melhores frutos: termos mal utilizados, pontuação e outros, como o referido pelo distinto padre Minhava:


– Gosto do que escreve. Não precisa de usar palavrões!


Jamais os usei, ainda que a linguagem pudesse ser mais expressiva, pelo uso de tais vocábulos, agora quase banais, mas que faziam ruborescer.


Gostaria de ir ao encontro de dois tipos de escrita: o citadino-rural de Júlio Dinis e o de “escrever no osso” como o de José Cardoso Pires fez nas suas produções literárias.


Os atores, comunicadores, cantores, etc., tidos como os mais desinibidos em cima de um palco, enfrentando os espectadores, são muito tímidos, segundo afirmam nas várias entrevistas. Para se libertarem de entrarem em pânico, pelo medo, chegam a tomar drogas. Mas, esses receios vencidos passam a ser libertadores! Diria: quanto maior é o medo, maior é a probabilidade de êxito. Nuno Álvares Pereira teria entrado em vigília, antes da batalha de Aljubarrota, exorcizando os temores ao inimigo.


Um sargento leccionando uma secção de soldados, ao seu redor na parada do quartel, o manejo das granadas, teve o azar de atirar uma para o meio do grupo, a fim de dar maior realismo à exposição, quando a tinha despoletado, e só se lembrou quando ia no ar; saltou para a recuperar e morreu sobre ela, impedindo a morte dos seus soldados. O risco de sobrevivência do sargento obstou outras desgraças. Ainda bem, foi condecorado por ato heroico.


Quando uma comunidade entra em período agudo de carências, os roubos aumentam. Ultimamente, os assaltos às residências, na cidade do Porto e Grande Porto, são um flagelo. Portas de apartamentos e vivendas, com fechaduras de alta segurança, são abertas e fechadas, antes e após os roubos, conforme os utentes o faziam. Chamada a Polícia, ao andar assaltado, informa:


– Os nossos técnicos não conseguem abrir uma porta como eles, temos que, em certos casos, de arrombar as portas a “black and decker”!


Andam os amigos e conhecidos cheios de medo. As condições de segurança vão sendo aumentadas: mais chaves, mais alarmes, nas portas de entrada e da garagem; elevadores sempre trancados. As habitações passam a prisões – a casas roubadas trancas à porta!


Do negativo pode nascer mais colaboração e amizade: um por todos e todos por um; as visitas passaram a ter a despedida à entrada do elevador e na saída do prédio, pois é preciso levá-las ao passeio, abrindo o portal da rua.


Os assaltantes “modernos”, nem para os animais, têm sido violentos, e não são de partir e destruir por malvadez, levam só dinheiro, ouro, joias, deixando mesmo as pratas!


Sabe bem recordar a aldeia transmontana, onde a chave de casa era guardada num buraco da parede ou ficava na porta!



Porto, 3o de abril de 2012



*José Gil Correia Monteiro

jose.gcmonteiro@gmail.com

terça-feira, 27 de março de 2012

CRÓNICAS

Mais uma croniqueta do Zé Gil


ANDAR AO RESPIGO


Muito antes de poder apreciar a célebre pintura de Millt (1857), As respigadeiras, onde se observam camponesas pobres na recolha de espigas de trigo, após a colheita realizada, já tinha o vício de andar ao rebusco das castanhas, azeitonas, do cornecho (cornelho) das espigas do centeio e, principalmente, ao respigo nas vinhas vindimadas, apesar de ainda ter cachos pendurados em casa, e na ramada do prédio, podendo continuar a colher as uvas pela janela do quarto!
O mais difícil era ter pouca força para abrir a janela de guilhotina, ter de enxotar as abelhas a libarem os sucos refinados, para apanhar os cachos fora de época, enquanto os moços amigos não tinham esse privilégio. Não podendo dar a todos uvas da minha parreira, íamos ao respigo! A vinha do Vale da Trave era a primeira escolhida, antes que o pastor das Fragas, Zé Manuel Beiço Rachado, fosse autorizado a enfiar lá as cabras, a comerem a viçosa e abundante folhagem.
Andar no respigo requer argúcia: vistoriar bem as videiras mais frondosas, onde os pequenos cachos não eram tão procurados, devido às distracções da vindima; nas bordaduras das vinhas na sombra do arvoredo, e não só, as videiras eram raquíticas que quase não davam fruto, ou por esparsas escapavam à apanha; os rapazes das cestas e apanha dos bagos eram coniventes nos esquecimentos! Bem respigadas as nossas vinhas passávamos às dos vizinhos mais ricos, pois as dos remediados nem davam para o desougo, quanto mais encher um boné! A vinha mais lucrativa era a vinha grande dos Roseiras (Maria de Belém estava para nascer)! Como fazia parte de outras, era contratada uma roga, orientada pelo rogador de Ludares, de sacho na mão, a comandar o rancho. Duas vindimadoras, uma de cada lado do bardo, interessadas, em encher as cestas rápidas, desprezavam as videiras dispersas e raquíticas, que podiam não ter cachos. Pois eram essas as fornecedoras das uvas de respigo finas e doce do “Verão de S. Martinho”! Na divisão da colheita faziam um lote especial, fora de outros cachos ou outoniços maduros.
No fim-de-semana fui a Soutelo do Douro. Estava longe de pensar em ir ao respigo, mas...
Quando subia do Pinhão para S. João da Pesqueira, reparei nos vinhedos bem diferentes dos outros anos: os deslumbrantes matizados das folhas era diferente! As videiras pareciam meio secas ou “alampanhadas” pelo fogo. Como ainda não era o tempo da apanha da azeitona nas bordaduras, as fogueiras não seriam a causa. Os tons abundantes e variegados da folhagem, tão apreciados pelos turistas, pareciam murchos, nos socalcos antigos e ainda resistentes, e nas encostas serpenteadas de patamares, alinhados como curvas de nível, em símbolo topográfico do Douro do Património Mundial.
Fui ver de perto uma vinha de eleição. Felizmente, mercê do bom desempenho agrícola, a precoce queda da folha não era grande, com a vantagem de se detectarem melhor os pequenos cachos não colhidos. Começou, assim, o meu respigo... Duplo prazer: voltar a ser menino e comer uvas frescas e super doces. Foi do ano especial – informou o João!
O Carlos, surpreso, agora que ninguém procura um respigo e ficam vinhas por vindimar, regressou por uma vinha, onde, deixou um valado de uvas de mesa a colher mais tarde. Os cachos retirados juntaram-se aos respigados e aos dióspiros, para serem comidos no Porto, cidade que deu o nome ao vinho fino ou generoso do Douro.


Porto, 30 de Novembro de 2011

José Gil Correia Monteiro

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

ESTÓRIAS DO ZÉ GIL



A PRAZO


Tudo tem um prazo de promessa ou de cumprimento de dever. Mas estava longe de supor, ou ter de ouvir:
– Os casamentos deviam ser a prazo!
Mais: nas deambulações pelas páginas do Facebook, encontrei o pedido de amizade de Isabel Carvalho, a residir em Los Angeles, e casada, desde 2008, com Maria Odete (!). O uso da palavra casada surpreendeu, pois a maioria da gente nova escreve: a viver uma relação com... E casamento do mesmo sexo foi a primeira vez que me apareceu na Internet. Sem comentários: cada um é como cada qual, assim ouvia dizer ao Luís Doutor de Roalde, em pequenino. Mas, nas conversas sobre matrimónios, escutei da adolescente Maria do Amparo:
– Os casamentos deviam durar três ou quatro anos, renováveis por acordo dos consortes – e ainda complementou – casar para toda a vida é um disparate!
As afirmações foram sujeitas à crítica dos convivas, tendo por panóplia a sociedade antiga, a pós-moderna e a cidadania. Em suma, o bem e o mal... Conciliador, fiquei a meio caminho do que era bom e do que era mau e tive de recordar o caso do Chico.
Dos amigos e colegas dos filhos, que mais passaram lá por casa, desde a Primária à Universidade, fomos sabendo as notícias e as transformações no tempo, desde os cursos, casamentos, empregos, até aos baptizados dos descendentes e, dez quinze anos passados, estão todos (as) divorciados, menos o Vítor e o Chico, ainda com familiares na nossa rua.
Ao abraçar o Vítor no passeio, e perguntando pela Família, fiquei perplexo, quando ouvi, na última noitada de S. João:
– Já não são meus sogros!
Ainda fui escutando: “... O casamento chegou ao fim... Os meus filhos estão bem, estão com a Mãe...”
As conversas com a “ minha gente ” têm, agora, como leitmotiv o falar dos netos, a Júlia já fala do bisnetos (!) e nos casamentos da descendência, e vem à baila referir:
– Dos amigos dos meus filhos, só o Chico não se divorciou!
Passados dias, ao repetir a mesma deixa, tive a mágoa de ouvir do João:
– O Chico já se separou da mulher!
Os comportamentos das diferentes gerações sempre existiu, mas agora são mais profundos e propalados à velocidade da luz! É necessária uma nova formação dos pais e avós para poderem ser compreendidos ou justificados. Nas Escolas é urgente existirem leccionações, em aulas de Formação Familiar e Cívica, para se poder sanar a ocorrência:
As escadas do passeio dum prédio, em frente a uma Escola Secundária, são ocupadas pelos alunos, antes das aulas. Um condómino, ao passar com uma cadelinha, verifica que os jovens são simpáticos, levantam-se, deixam passar, e até fazem festas ao animal. Mas, ontem, uma moça snobe e espavorida, na passagem da cadela (para ela cão), disse:
– É parecido com o meu Pai!!!


Porto, 28 de Outubro de 2011


José Gil Correia Monteiro
jose.gcmonteiro@gmail.com




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