sábado, 14 de fevereiro de 2015

LIDO

Os "povos" que não querem trabalhar

Em 2010, ainda governava José Sócrates, Cavaco Silva ouviu do Primeiro-ministro checo as seguintes palavras: «O défice do nosso orçamento chegou, o ano passado, aos cinco por cento. Eu fico muito surpreendido por Portugal não estar preocupado quando tem um défice de oito por cento. É um caso curioso, interessante e espero que não estejam aqui jornalistas porque, a nível interno, eu digo que é absolutamente necessário eliminar o défice o mais depressa possível e defendo a introdução de medidas radicais para o conseguir. Portanto, sr. presidente, peço-lhe que não divulgue por cá que vocês têm um défice ainda maior que o nosso».
Vaclav Klaus fez várias afirmações deste tipo diante de Cavaco Silva, algumas nos contextos mais inapropriados, e o Presidente ficou muito incomodado. Acabou por responder que Portugal iria sem dúvida no futuro ter défices mais baixos e elogiou um dos PEC de Sócrates.

Muita água passou de 2010 a 2015. É natural que hoje Cavaco Silva se sinta como Klaus face à Grécia, até porque as suas afirmações da semana passada são do mesmo teor das do político checo. No intervalo, Portugal “ajustou”, ou seja, aumentou exponencialmente os seus impostos, cortou salários e despediu centenas de milhares de portugueses, levou milhares de empresas à falência, destruiu a vida e o futuro de muitas famílias portuguesas, acabou com a escassa e débil classe média que se formara depois do 25 de Abril, alterou profundamente o equilíbrio das relações laborais a favor do patronato, vendeu todas as “jóias da coroa” menos uma, aumentou a pobreza, a exclusão social e as diferenciações sociais, desmantelou vários serviços públicos na administração central, na saúde, na educação e na justiça, e tem uma política externa ficcional. Mas “ajustou”, pelo que Cavaco Silva pode aparecer orgulhoso diante do sucessor de Klaus e dizer, na linguagem adolescente de Passos Coelho, que “fez o trabalho de casa”. Como batemos no fundo, alguns números da economia são debilmente positivos e outros continuam negativos, uns crescem, outros descem, outros já cresceram e depois desceram. Nalguns casos, as coisas melhoraram exactamente pelas razões que o governo demonizava, como seja o consumo interno.

Nada de sólido, tudo muito instável e ninguém de bom senso é capaz de dizer que foi feita qualquer “reforma estrutural” em Portugal, muito menos na economia. Na sociedade sim, mas chamar-lhe reformas é um insulto à inteligência. Andou-se para trás. Quem quiser “compor” o país, vai ter enormes dificuldades.

É verdade que os juros estão historicamente baixos, só que não há nenhum analista independente que atribua essa circunstância aos méritos nacionais, mas sim ao BCE e ao excesso de liquidez dos investidores, que levaram quase todos os juros europeus (incluindo os gregos, até Janeiro de 2015), a baixar muito. A única coisa que o governo pode dizer a seu favor na questão dos juros é que, como sempre foi bom aluno das políticas de “ajustamento”, não foi um óbice para essa descida, como é o haver hoje em Atenas um governo rebelde. Mas, como também qualquer analista independente dirá, os juros são de tal maneira voláteis face aos diferentes riscos europeus, que podem voltar a subir a qualquer altura.

Cavaco Silva e Passos podem hoje esnobar da Grécia, como Klaus fazia com Portugal, mas ao fazê-lo enfileiram no pior que existe hoje na política europeia: a perversão dos objectivos da União, transformada num instrumento da política económica e financeira da Alemanha. A essa situação de facto, que nenhum Tratado permite, juntam-se duas outras ainda maiores perversões – o declínio do socialismo europeu domado pelo Tratado orçamental, logo a perda da alteridade política, e o permanente resvalar das democracias europeias para retirar do escrutínio dos parlamentos e, pior ainda dos eleitores, todas as políticas europeias decisivas. Está criado um monstro, e é da natureza dos monstros fazer monstruosidades.

Ora, quando Cavaco e Passos passaram a falar dos “gregos” como uma entidade orgânica, um país de gente preguiçosa, que só quer férias, que não paga impostos, nem aliás coisa nenhuma, das portagens à electricidade, e que pretende viver eternamente à custo do dinheiro estrangeiro, eles engrossaram uma hoste europeia que é demasiado conhecida e que vai do Partido dos Verdadeiros Finlandeses, à Liga Norte italiana de Umberto Bossi e à sua reivindicação da Pâdania.

O caso italiano é muito significativo, porque espelha argumentos muito comuns nas zonas ricas de um determinado país, em relação às zonas mais pobres, muitas vezes rurais e pouco industrializadas, como é o caso do Sul da Itália. Por que razão o Norte italiano rico, industrial, trabalhador e próspero tem que “pagar” para esses preguiçosos da Calábria que vivem da assistência social e não querem trabalhar? O mesmo tipo de “argumentos” existe em vários países: na antiga Checoslováquia por parte dos checos e contra os eslovacos, em Espanha e mesmo em Portugal. E não é verdade que os alentejanos não gostam de trabalhar e querem viver sempre à “sombra de um chaparro” a dormir? E Pinto da Costa não falou várias vezes do Porto e do Norte trabalhador que alimenta os “mouros” de Lisboa para baixo? E em que é que estes “argumentos”, atingindo povos, regiões, histórias diferenciadas, são diferentes dos que a extrema-direita dá contra os “pretos”, os “árabes”, e os “imigrantes”, que também não querem trabalhar, mas viver da segurança social e das regalias dos países mais ricos, em detrimento dos seus habitantes “nacionais”?

Cavaco Silva e Passos Coelho falaram dos “gregos” com o mesmo grau de generalidade e anátema. Como muito dos seus repetidores nos media e nas redes sociais, são as “características” intrínsecas do povo que são atacadas. O que aconteceu na Grécia, nesta versão, é culpa do povo, não dos anteriores governos gregos. Percebe-se, porque o povo votou mal e derrotou o governo preferido por Cavaco Silva e Passos Coelho: o tandem troika-Nova Democracia.

Sim, porque se o PASOK tem culpas no passado, a Grécia era até Janeiro governada por um governo membro do Partido Popular Europeu (de que faz parte Merkel, Rajoy, Passos Coelho e Portas) que foi apoiado pelos partidos no poder na Alemanha, Espanha e Portugal. E mais: foi governado pela troika, em conjunto ou em cima, e se os resultados deixaram a Grécia com a gigantesca dívida que tem, e sem “ter feito o trabalho de casa”, a culpa é de quem? Do Syriza? Silêncio.

E os gregos não querem austeridade, o pecado mortal da Grécia para Cavaco e Passos. Mas o que é que eles tiveram nos últimos anos: despedimentos, falências, encerramentos, corte de serviços fundamentais, cortes na educação, na saúde, na segurança social, uma queda brutal do produto Interno Bruto? De onde é que isto veio, do esbanjamento e da preguiça inata aos gregos? Como é que se chama a isto, senão uma dura, penosa, cega, punitiva austeridade? Na verdade, como Passos Coelho diz com todas as letras: foi pouco, têm ainda que ter mais. Mas o que nem Cavaco nem Passos dizem, é aquilo que é evidente: não resultou, nem resulta, nem resultará. É uma receita errada quer em Portugal, quer na Grécia. Mas era a continuação dessa receita, aquilo a que chamam “cumprir as regras”, que Passos queria para a Grécia, com aquela cegueira que tem os acólitos e que continua mesmo quando os mestres já estão noutra.

Voltando a Klaus, ele disse uma coisa muito interessante, pediu a Cavaco “que não divulgue por cá que vocês têm um défice ainda maior que o nosso”,porque isso iria fazer os checos contestarem as medidas do governo. Uma parte importante da intransigência com os gregos vem de governos acossados, como é o caso do português e do espanhol, que andaram a dizer aos seus povos que não havia alternativa a não ser a política que seguiam.

Ora, a questão não é a de validar o programa do Syriza, ou assinar por baixo de Tsipras e Varufakis, mas a de saber se, no fim de tudo, os gregos têm ganhos de causa ao terem votado como votaram. E se sim, como é que ficam os que tinham para eles a receita de tudo continuar na mesma, votando na Nova Democracia, na obediência à troika, e na política até agora intangível da Alemanha. Esse é que é o mal grego que Cavaco e Passos querem extirpar.

José Pacheco Pereira, in Público de hoje
 

PASSISSES...EM QUE FICAMOS?



Afinal, Portugal não foi o país da zona euro que mais ajudou a Grécia

Os números disponíveis contrariam a ideia defendida por Passos Coelho. Dados da Bloomberg podem ter ajudado à confusão.



Portugal está entre os países da zona euro que concederam até agora um menor volume de empréstimos à Grécia, quer em percentagem do PIB, quer levando em conta a dimensão da sua população. Isso acontece pelo facto de Portugal, a partir do momento em que lhe foi aplicado também um programa da troika, ter ficado dispensado dos custos associados à ajuda financeira à Grécia.
Os números disponíveis parecem, assim, contrariar a ideia defendida por Pedro Passos Coelho esta quinta-feira de que Portugal é “de longe o país dentro da União Europeia que, em percentagem do seu produto, maior esforço fez de apoio e solidariedade em relação à Grécia”.
A confusão pode ter acontecido na sequência de dados publicados por um economista da Bloomberg sobre o grau de exposição de cada país da zona euro à dívida grega. Maxime Sbaihi calculou, em contas reproduzidas por alguns meios de comunicação social nacionais, que o Estado português tinha uma exposição à dívida pública grega de 5,5 mil milhões de euros. Este valor representa cerca de 3,2% do PIB e superaria assim os 2,8% registados por Chipre e os 2,5% de Eslovénia, Malta e Espanha.
O problema com estes números de Portugal é que apenas parecem ser possíveis de atingir se, para além dos empréstimos bilaterais que foram concedidos pelos países do euro à Grécia logo no início da crise, da quota parte da exposição do BCE à Grécia e da quota parte da exposição do FMI, tiverem sido também considerados encargos de Portugal com os empréstimos concedidos pelo Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF).

Mas, tal como confirmou ao PÚBLICO o porta-voz desta instituição, Portugal não teve de contribuir com qualquer transferência ou garantia para o FEEF. Por uma razão simples: por essa altura, Portugal também iria passar a receber os seus próprios empréstimos, na sequência da chegada da troika ao país. Isso aconteceu igualmente com a Irlanda e Chipre, para além, é claro, da Grécia.
Portugal contribuiu sim, num montante próximo de 1100 milhões de euros com empréstimos bilaterais à Grécia, logo na fase inicial da crise, quando a falta de instituições próprias para os apoios financeiros de emergências, a zona euro optou por financiar a Grécia através de créditos concedidos por cada um dos países. Portugal está ainda, de acordo com as quotas que tem nas respectivas instituições, exposto ao risco que é assumido pelo BCE (ao emprestar dinheiro ao Banco da Grécia e ao próprio Estado grego) e pelo FMI.
Um cálculo da exposição de cada país da zona euro, publicado em Janeiro pelo director da IESEG School of Management, Eric Dor, chega a números bastante diferentes dos de Maxime Sbaihi. Neste caso, que não inclui os empréstimos do FMI, Portugal tem uma exposição total de 2676 milhões de euros (1106 milhões dos empréstimos bilaterais e 1574 milhões relacionados com o BCE), o que representa 1,5% do PIB. 
Este valor supera apenas o de quatro outros países na zona euro: Luxemburgo, Chipre, Letónia e Irlanda. E fica consideravelmente abaixo dos 3,4% da Eslovénia, 3% da Espanha e Itália, 2,5% da França e 2,4% da Alemanha.
Quando se leva em conta as paridades do poderes de compra (assumindo que custa mais a Portugal emprestar um euro do que aos países mais ricos), as diferenças esbatem-se em relação às maiores potências europeias. Ainda assim, o peso é de 1,7% do PIB em Portugal, contra 3,2% em Espanha, 2,9% em Itália e 2,2% na França e na Alemanha.
A exposição por pessoa à Grécia é de 257,5 euros em Portugal, contra, por exemplo, 715 euros em Espanha ou 882,4 euros na Alemanha.
Se se levasse em conta os empréstimos do FMI, os números seriam mais altos, mas não apenas para Portugal, já que todos os países da zona euro fazem também parte da estrutura accionista do Fundo.
As declarações do primeiro-ministro surgiram como resposta à carta subscrita por 32 personalidades que defendem ser “contraproducente” a forma como o governo português tem gerido o debate europeu em relação à Grécia. “Tive a ocasião de ler a carta. Ela parte de um equívoco. Portugal é de longe o país dentro da União Europeia que, em percentagem do seu produto, maior esforço fez de apoio e solidariedade em relação à Grécia”, afirmou Passos Coelho.
Não foi possível obter junto do gabinete do primeiro ministro qualquer resposta sobre quais os dados usados para sustentar esta afirmação.
                 
Público de hoje

EFEMÉRIDES


Neste dia, em 1944, nasce Alan Parker, realizador britânico

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

CONTRIBUTOS EXTERNOS

Um textículo do Henrique Antunes Ferreira, que anda, em vacances, pelas Índias e que sofreu um pequeno acidente



Nomes com História



Por Antunes Ferreira

Ainda não tinha contado que o Amigão Dr. Zito Menezes, já muitas vezes citado nas colunas da nossa Travessa, decidira levar-me à Professora Doutora Flora Miranda para que ela me visse a perna esquerda muito escalavrada. Assim aconteceu e ilustre médica receitou-me um antibiótico forte, um sabonete desinfectante e… Betadine. Pela consulta, paguei a exorbitância de 300 rupias, pouco mais de… quatro euros; uma exorbitância… Já comecei o tratamento e a pata esquerda parece melhorar.

Por isso, voltou-me alguma disposição, animado pelos Amigos Zito Menezes, Carminho Costa e Álvaro Amorim, este de longa data e que é o “presidente” da nossa tertúlia Sabores & Saberes que todas semanas às quintas-feiras se reúne no restaurante “Sabores de Goa” no Bairro das Colónias aí em Lisboa. Note-se que foi a única denominação escapada ao frenesim salazarento que, como bom provinciano, pensou ter enganado a ONU com a transformação em… províncias ultramarinas. Porém o Bairro manteve orgulhosamente a assim e ninguém foi capaz de do derrotar, por decreto-lei aprovado na Assembleia Nacional.

Daí que hoje na antevéspera do Carnaval (que por estas bandas é também e ainda muito comemorado, com desfile de carros alegóricos e toda a parafernália do entrudo) me decida a escrever um textículo tendo por cabeça ÁGUA DE COCO. Quem nunca a experimentou faça como disse o Camões: “mais vale experimenta-lo que julga-lo; mas julgue-o que não pode experimenta-lo. Serão prosas curtas e convalescentes. Férias são férias, serviço é serviço, conhaque é conhaque.
Um exemplo: no centro de Pangim, mais coisa menos coisa, a caminho da praça da igreja da capital, há um jardim (que já vi mais do maltratado) e agora reconstruído pela “câmara municipal” da cidade, o City Council. Chama-se ele Garcia de Orta - quando puto o desgraçado que dissesse Garcia da Orta ira imediatamente premiado com cinco palmatoadas pela dona Clélia Marques, directora da escola Mouzinho da Silveira e professora da quarta-classe – em homenagem ao médico e botânico que chegou a físico da Imperatriz da Rússia, no século XVI.

Pois num dos prédios que o rodeiam pode encontrar-se o Clube Vasco da Gama onde nos tempos dos portugueses decorriam bailes famosos até de madrugada, com serviço aprimorado (e apropriado), onde eram famosos os croquetes de carne bem picantes, O clube fica num terceiro andar, debruçado sobre o jardim, mas hoje está reduzido a um restaurante sem grandes motivos para aplauso. Nele continuam a pontificar os croquetes, que posso dizê-lo por experiência própria têm vindo a definhar. A freguesia é cada vez mais menor. Por lá param muitos cabelos brancos, que mais dia, menos dia seguirão o seu destino final.

Nesta terra de contrastes mas também de singularidades, é curioso para um luso-viajante que aqui aporta encontrar esta curiosidade. Para quem já está habituado, com é o caso do escriba, não tem especial significado esta coincidência. No entanto, e mesmo assim, em prédios onde há mais de cento e muitas lojas que na maioria dos casos ostentam nomes como Vishal , Karmonkar e outros, um clube denominado Vasco da Gama com photographya e pendão do descobridor que inaugurou o caminho marítimo para a Índia sem transferência em qualquer estação e sem cor identificadora da linha – é obra. Ainda que os croquetes já não sejam o que era, Sic transit…



EFEMÉRIDES


Neste dia, em 1965, morre, assassinado em Espanha pela PIDE, o general Humberto Delgado

MEMÓRIAS


Neste dia, em 1883, morre Richard Wagner, compositor alemão

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

TRANSCRITO

Hoje por Pedro Santos Guerreiro
Diretor Executivo
 
12 de Fevereiro de 2015
 
“Falidos mas livres” (mas não ainda)
 
Quem acompanha processos europeus complexos está habituado a reuniões decisivas que não decidem, adiam. Faz parte da negociação – e da encenação? – entre estados membros e assim foi ontem à noite, no “encontro do tudo ou nada” entre ministros das Finanças que não foi nem tudo nem foi nada. O destino da Grécia na zona euro fica adiado para segunda-feira. A notícia da noite foi: não houve acordo sequer quanto a um comunicado conjunto.

A falta de acordo até para fechar um comunicado é mais do que o símbolo do fracasso da reunião
. Segundo conta o Financial Times, o ministro das Finanças Varoufakis informou os presentes de que estava de acordo com a publicação de um comunicado conjunto, mas terá sido desautorizado pelo seu primeiro-ministro quando telefonou para Atenas. Eva Gaspar, no Negócios, diz que a reunião não cumpriu sequer os mínimos: "um acordo sobre o método e o calendário a seguir para tentar alcançar um entendimento concreto".

Yanis Varoufakis, que entrou como estrela da noite, fotografado entre os demais com um sorriso largo, recusava à saída em falar de derrota: “Foi-me dada uma oportunidade maravilhosa para apresentar a nossa visão, as nossas análises e as nossas propostas.” Para já, a maior pressão está na forma de assegurar o financiamento da Grécia até setembro.
O encontro até começara bem, com Lagarde e Varoufakis a darem a mão e a trocarem piropos, numa inesperada demonstração  de  ternura para as fotografias que quebrou o gelo. “Ele chegou de blazer e calças pretas”, ensaiou Luciano Alvarez no Público, “ela esperava-o toda de preto e de cabedal”, e assim a reunião do Eurogrupo começou “de forma fofinha entre ele e ela. Com ambos rendidos um ao outro, perdidos entre sorrisos e olhares cúmplices.”

A questão não é se a reunião foi “fofinha”, é perceber se o ambiente institucional em torno da Grécia aperta ou distende. Hoje, Alexis Tsipras estará na sua primeira cimeira europeia, com a Grécia na maior indefinição. Tsipras e Varoufakis têm forte apoio popular na Grécia, o que ainda ontem se viu, numa manifestação contra as políticas de austeridade que juntou 15 mil na praça Syntagma, em Atenas, empunhando cartazes com palavras de ordem como “Falidos mas livres” ou “Um sopro de dignidade”.

E Portugal?
Frase puramente opinativa: Portugal está na posição mais cínica: ao lado da Alemanha desejando que a Grécia vença. Hoje, numa carta dirigida ao primeiro-ministro, um conjunto economistas, políticos, cientistas e outras personalidades apelam a Passos Coelho que mude de posição em relação à Grécia. Os subscritores têm como base os dinamizadores do Manifesto dos 74 que propôs a renegociação da dívida, mas alargam o apoio a outras personalidades. Portugal, note-se, foi o quarto país do mundo que mais aumentou a sua dívida entre 2007 e o segundo trimestre de 2014, de 258% para 358% do PIB. Isso mesmo, 385% em dívida acumulada (Estado, empresas e famílias), segundo um estudo da McKinsey noticiado no Negócios.

Até à segunda, querida Grécia. Até depois, Portugal.

Até quando, Ucrânia?

Noutra maratona negocial, os líderes da Ucrânia, Rússia, França e Alemanha estiveram fechados numa cimeira da paz em Minsk visando uma solução que ponha termo ao conflito em solo ucraniano. O objetivo de conseguir um acordo de cessar-fogo não está ainda conseguido. Mas a agência de notícias estatal russa Ria Novosti, citada pela CNN, noticiou durante a madrugada em Lisboa que será assinado um acordo de dez pontos, que prevê a retirada de artilharia pesada e a criação de uma zona desmilitarizada. Um acordo de cessar-fogo pode ainda ser conseguido nas próximas 48 horas. Fumo branco?


OUTRAS NOTÍCIASHá dois assuntos que estão em metade das primeiras páginas de hoje nas bancas. O segundo tema fica para o fim; o primeiro é manchete no Jornal de Notícias, no Económico e no Público: a proposta do governo de que as autarquias possam reduzir o horário de trabalho para 35 horas semanais fica sujeita à condição de as câmaras terem as contas em dia. Na verdade, essa é uma de sete condições, que o Negócios lista. O assunto dura há ano e meio.

Em quatro anos, 12 mil automobilistas foram avisados de que se tivessem mais um incidente ficariam sem carta de condução. Mas apenas 41 ficaram sem ela. Grande parte dos processos prescreveu. A notícia faz hoje manchete do Diário de Notícias.

Francesco Schettino, o comandante do Costa Concordia, navio que naufragou em janeiro de 2012 matando 32 pessoas, foi condenado a 16 anos de cadeia. Schettino não assistiu à leitura da sentença. De acordo com o seu advogado, "estava com febre".

A Caixa Geral de Depósitos teve prejuízos de €348 milhões em 2014. Uma redução face a 2013 mas mesmo assim quase um milhão por dia. Tudo por causa de créditos do passado que não são pagos, o que obrigou a provisões e imparidades de quase mil milhões.

O Benfica é o primeiro finalista da Taça da Liga, depois de vencer o Setúbal por 3-0 na Luz.

O Bloco de Esquerda e PS admitem chamar ao Parlamento uma investigação sobre os casos portugueses do processo Swiss Leaks, que lista 220 clientes portugueses. Por causa da revolta levantada pelo escândalo, que revelou contas no HSBC da Suíça que facilitavam a fuga aos impostos e a ocultação de ativos (se quiser saber como, o Expresso Diário explica), o Henrique Monteiro aqui escreveu que é preciso separar a fuga do fisco do julgamento moral da riqueza, “como se quem fosse rico tenha de ser necessariamente suspeito”. Na China os julgamentos são outros: o magnata mineiro Liu Han, que era o 148º chinês mais rico, foi executado depois de ser condenado por crime organizado.

A concessão de vistos gold caiu a pique, noticia o Negócios. Em Janeiro foram atribuídos 78, “menos de metade dos emitidos em Novembro, quando rebentou o escândalo de corrupção neste programa.”

Obama pediu autorização ao Congresso norte-americano para autorizar a utilização de forças militares contra o auto-denominado Estado Islâmico (Daesh), num plano a três anos. A notícia há de ter muitos desenvolvimentos...


FRASES“Portugal, um país que passou também por dificuldades, emprestou à Grécia cerca de 1.100 milhões de euros e agora está a transferir muitos milhões que são tirados dos bolsos dos contribuintes”. Cavaco Silva, ontem aos jornalistas.

“São declarações que procuram humilhar - por contrapartida de um comportamento do Governo português que o Presidente da República procura todos os dias elogiar - o povo grego e o Governo grego”. Carlos César, respondendo a Cavaco.

“Intenções da Altice são positivas para Portugal”, diz o ministro da Economia, Pires de Lima. A PT começará já por reduzir o número de administradores, noticia o Económico.

“Eu não teria cortado relações com o Benfica", Filipe Soares Franco, sobre a decisão do Sporting do fim de semana, citado no DN.

“Plantem vegetais extensivamente em estufas!” é um dos novos 310 slogans oficiais da Coreia do Norte, agora revelados.


O QUE EU ANDO A LERNão li nem ando a ler “As 50 sombras de Grey”, cuja adaptação a filme tem sido arrasado pela crítica, que o apelida de coisas como “pornografia para mamãs”, embora muitos escrevam que, em comparação com o livro, lhe falta sexo. Mas pronto, a coisa estreia hoje em todo mundo, com mais de 40 mil bilhetes já vendidos em Portugal, e a histeria está em todo o lado. Inclusive em quase todas as primeiras páginas de hoje dos jornais – esse era o segundo tema reincidente de que lhe falei.

Recomendo-lhe outra leitura, a partir das 18 horas. Se ontem a notícia foi de que o Aeroporto da Portela pode vir a chamar-se Humberto Delgado, (a notícia pode ser lida por exemplo aqui), o facto são os 50 anos sobre a sua morte. Esta tarde, no Expresso Diário (que pode ler assinando ou usando o código da revista E de sábado passado), vamos republicar nos Ficheiros Expresso uma entrevista histórica de 1998 a Rosa Casaco, que chefiou a brigada da PIDE que assassinou o general Humberto Delgado a 13 de Fevereiro de 1965, perto de Badajoz. “Como matámos Humberto Delgado”

E pronto, amanhã aqui estará o Martim Silva, que veremos se conseguirá escrever no Dia dos Namorados sem esbanjar recomendações pirosas ou, vá lá, alimentar a epidemia de graçolas com “As 50 Sombras de Grey” que se leem em jornais por todo o mundo.

Até depois? Até já, Portugal. No site do Expresso e no Diário às 18 horas.

MEMÓRIAS



Neste dia, em 1979, morre Jean Renoir, realizador francês