sexta-feira, 15 de novembro de 2013

CONTRIBUTOS EXTERNOS

Mais um contributo do Amigo Henrique Antunes Ferreira


A Spielberg case

Por Antunes Ferreira

Eu bem suspeitava que transportava comigo uma segunda derme, perfeitamente acoplada à pele, talvez mesmo indissociáveis ambas. Especifico: à minha pele; ou seja à minha epiderme. A este propósito e antes de me alongar (prometo que me encurtarei), venha a clássica consulta à Wikipédia. A epiderme (do grego Επιδερμίδα epi+derme; em cima da pele) é a camada mais superficial da pele, ou seja, a que está directamente em contacto com o exterior. É um epitélio escamoso estratificado que actua como importante barreira do corpo em ambientes inóspitos, protegendo a pele contra infecções, perdas de calor e outras, nomeadamente em partes mais sensíveis, contra traumas.
Mas nunca pensei que essa duplicidade dérmica fosse suficientemente evidente para que outras pessoas a descortinassem. Como andava enganado? Aqui há uns dias, por obra de amigo comum, reencontrei o Ilídio Guedes, meu companheiro até à quarta classe (quando a havia). Daí para a frente nunca mais puséramos os olhos em cima dos outros do outro e vice-versa. Foi uma alegria, podem crer. Mas, depois, uma ansiedade, para terminar numa completa desilusão. Palavra puxa palavra, frase puxa frase e a dada altura, surdiu a clássica… e como vais de amores?
Dado que o autor confesso da inquirição era (ou fora) da minha inteira confiança, respondi-lhe que estava casado quase há cinquenta anos, ao que o Guedes me perguntou, com um ar de espanto afivelado na face, e sempre com a mesma mulher? Perante a minha anuência, o camarada olhou-me de alto a baixo e desfechou, fala-se muito em study cases, que se dividem em muitas alíneas, mas o teu caso é realmente como o lince da Malcata, ou seja em vias de extinção. Visto que eu persistia na imobilidade esbugalhada (característica que é apanágio do chamado Presidente da República em Belém) Ilídio acrescentou  que o meu era um verdadeiro Spielberg case pois eu me aproximava muito de um dinossauro, mais precisamente do anquilossauro.
Nesta altura da ocorrência, costumam as autoridades deslocar-se ao local onde ela se verificou. E esta era precisamente um bom exemplo da presença de agentes devidamente uniformizados que oportunamente iriam dar, supostamente, conta do que acontecera face à espinhosa situação de eu, ainda que subtilmente, possuir duas peles, duas dermes, até mesmo duas cútis. Interrogar-me-iam, por certo, sobre esse estranho anacronismo.
Entretanto, Guedes continuava a olhar-me entre o divertido e o admirado, pelo que de imediato me ocorreu que o sujeito estava a abusar de uma velha camaradagem desde os dois lugares da mesma carteira do externato Mouzinho da Silveira, isto é, estava a gozar-me. Tive ganas de lhe citar o Franz Kafka, mas contive-me. Sabia lá se ele me questionaria de forma acintosa, mas esse gajo joga na Primeira Liga ou na Segunda? O nome não me é estranho…
Pela minha parte, continuava a matutar na forma como lhe responderia, se a situação se tornasse numa calamidade. E, mentalmente equacionei que lhe poderia atirar que quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado viu que se transformara, durante o sono, numa espécie monstruosa de insecto. E acrescentaria que era assim que Kafka  inicia a história do caixeiro-viajante, que numa manhã, ao acordar para o trabalho, vê que durante a noite se transformara num insecto horrível com um "dorso duro e inúmeras patas". Estive prestes a despejar no frontispício irónico do Ilídio que assim era o início da obra chamada “A Metamorfose” da autoria do escritor checo.
Logo de seguida continuei a elucubração, relembrando também “A Mosca”, filme que retracta a transformação repulsiva de um cientista numa enorme mosca, por intermédio de uma máquina de teletransporte que tinha inventado. As duas estórias juntas, ainda que separadas por mais de meio século, seriam mais do que suficientes para esmagar o Guedes. De tal sorte que acabariam as insinuações torpes sobre a suposta mutação ocorrida sobre mim mesmo. E o homem a dar-lhe, isso nem parece teu, mas vendo bem essa estória dos cinquenta anos casado sempre com a mesma mulher leva-me a corrigir a primeira avaliação; na verdade pareces-me mais um gorgossauro…

Só consegui responder-lhe com um angustiado – nota-se muito? E ele, a fazer de sério, se não abrisses a boca, não notaria nada e aproveitou para aditar que por fora, ou seja, a nível da epiderme, ninguém diria que eu era um sepielberguiano caso, em tradição livre e literal. Convicto de que não fazia parte de um qualquer Parque Jurássico, suspirei fundo. No entanto, assoberbado pela dúvida, foi então que me descobri portador dessa pele elevada ao quadrado, ainda que da mais firme, sincera e impoluta formação legal, moral e familiar. E assim me mantenho, sem traumas, graças ao meu epitélio escamoso estratificado.

1 comentário:

500 disse...

É de supor que esse amigo nunca mais apareceu, por causa de eventuais contágios epidérmicos (e não só), digo eu.