sexta-feira, 5 de junho de 2015

CONTRIBUTOS EXTERNOS


Quem ganhou com o Jesus?

Por Antunes Ferreira


Neste momento não se fala noutra coisa: a “transferência” de Jorge Jesus do Benfica para o Sporting. Comentadores de todos os feitos, idades, filiação clubista, militantes partidários, directores e jornalistas de órgãos de comunicação escritos e paper, on-line, de televisões, de participantes em mesas redondas, analistas financeiros, rádios (que eu saiba com excepção da Rádio Amália e alguns órgãos paroquiais, sublinha-se alguns)  e muitos mais.
A grande questão é saber quem ganha com o tema a caminho da eternidade, viral nas redes sociais, nos barbeiros, nos cabeleireiros de senhoras, nas minis, pequenas e médias empresas, nas multinacionais sediadas no nosso país, nas artérias mais diversas, enfim por tudo o que é sítio. Benfica? Luís Filipe Vieira? Sporting?  Bruno de Carvalho? Porto? Pinto da Costa?  Jesus? Marco Silva? Rui Vitória? Parece-me que nenhum dos apontados com ponto de interrogação.
Para mim quem ganha – como quase sempre acontece – é o (des)Governo que infelizmente aturamos, é o suposto e vingativo e desbocado PR, resumindo é (como se dizia no tempo salazarento) a Situação, enfim, a Nação. Esta epidemia de Jesuses & Companhia, S.A. fez lindamente aos ditos órgãos de soberania, mas igualmente à troika que aí está a chegar para investigação de como correm as coisas, um tanto ao invés do que, em tempos mandara. E ainda hoje manda.
Explico-me: quem fala sobre a privatização da TAP? Quem fala sobre a remarque que é o pífio programa de governo da coligação? Quem fala sobre a despesa pública, menor do que a privada? Poucos, muito poucos. Alguns submissos e tímidos órgãos da comunicação social (?), uns comentadores laranjas e azuis e pouco mais.
O povo, esse, que se queixa da austeridade (e da autoridade) e que é constituído pelos os pensionistas e os reformados que vêem, em ano de eleições, promessas ténues de reposições das pensões que em boa parte lhes foram roubadas, os trabalhadores da Função Pública, as forças de Segurança, os militares (que, em ano de eleições, viram a promessa de aumentos dos respectivos efectivos, dos meios correspondente e até de aumentos). Resumindo: os cidadãos anónimos diariamente espoliados que constituem o povo.
Mas ele, o povo, prefere falar do folhetim JJ da demissão do senhor  (?) Sepp Blatter, da corrupção na FIFA, da final da Champions, até da selecção nacional dos senhores Fernandos, Santos e Gomes, enfim do futebol que nos tempos da outra senhora integrava a trilogia dos fff e agora também: Fado, Futebol e Fátima. O povo português entre o FMI e o Cristiano Ronaldo, escolhe obviamente o segundo.
Acrescente-se que entre a Fräu Merkel e o Mourinho, escolhe naturalmente o “Jousé”, que entre a Paula Rego e o Wilson Carvalho, ainda escolhe o médio do Sporting, e que entre o BCE e Leonardo Jardim, também escolhe o segundo. No fundo e como é habitual, recorre o dito povo aos exemplos de alguns dos seus antepassados, no caso vertente a Roma do Césares: panem et circenses.  Enquanto vê, discute, comenta e fala do futebol, não  fala da política, das finanças e da economia; muito menos das legislativas.
É uma regra sagrada em ano eleitoral: dar ao povo um pouco do que lhe foi furtado, partindo do princípio de que ele tem memória curta. Ó diabo; por mais que se queira negar isto, chega-se à mesma conclusão: tem mesmo. E a memória curta, que nem os elefantes têm, reflecte-se nas urnas. Obviamente nas eleitorais, naquelas em que se deitam os votos, não nas dos funerais. O busílis da questão é que, bastantes vezes as primeiras desembocam nas dos cemitérios.

Por isso repito e sublinho o que advoguei acima: quem ganha com o Jesus e adjacentes são os putativos órgãos da Soberania. A coligação espúria que ganhar as eleições de Outubro para se perpetuar (pelo menos mais quatro anos) no poder. A mesa do Orçamento é bem abastecida de iguarias e bebidas; por que bulas haverá novos comensais, se nós estamos tão bem. Palavra do Senh…, digo, palavras dos senhores.

Sem comentários: