quinta-feira, 2 de outubro de 2014

CONTRIBUTOS EXTERNOS

Moedas e a Inovação…

Por Antunes Ferreira
Cada vez estou convencido que a vergonha é coisa que caiu em desuso pelos ditos políticos portugueses. Dia após dia os exemplos vão avolumando-se e o povo ignaro assista a este festival de mentiras e despudor que é apresentado em todos locais, nomeadamente em feiras, circos e fantoches de rua, com o que antes era a ganapada que os aplaudia e hoje somos nós, os Portugueses, que os aturamos e, por vezes, até os aplaudimos. Já ninguém, ou quase, que encolhe os ombros e amocha quotidianamente.
Quando Álvaro Vaz de Almada, conde de Avranches, no final da batalha de Alfarrobeira, já não conseguia resistir aos seus adversários e via perto a morte, bradou “É fartar, vilanagem”, mal sabia que esse seu grito se transformaria numa forma de crítica desesperada numa ocasião em que as pessoas já não podem mais com quem quer que seja, ou numa ocasião em que estão fartas  de tudo e de todos  e desenganadas. Neste momento que se vive no nosso país o grito é, mais e mais, justificado: É fartar, vilanagem!
Carlos Moedas, ex-secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro (?) Passos Coelho, assumiu na terça-feira de manhã na sua audição no Parlamento Europeu, em Bruxelas, que discordou “muitas vezes” com a política da troika, mas mostrou capacidade de resposta, uma característica que considera importante como futuro comissário de Investigação, Ciência e Inovação. Isto porque, no seu entender o pais “precisava de mostrar credibilidade na Europa”.
E disse mais:  “Estive durante três anos a ajudar no programa de ajustamento que foi muito difícil, foram sacrifícios enormes, sempre reconheci a dureza e o sacrifício do programa. Portugal estava num momento em que precisava de mostrar a sua credibilidade àqueles que deram dinheiro”, defendeu, na resposta à eurodeputada do Bloco de Esquerda Marisa Matias.
E se por acaso, longe vá o agouro, uma nova crise se apresentar, espera que a resposta política consista antes no investimento na ciência e inovação. No entanto, Carlos Moedas defende que o seu trabalho passado demonstrou a capacidade de resposta. “Sou uma pessoa que apresenta resultados e no Horizonte 2020 [o próximo programa europeu de financiamento da ciência] é importante ter uma pessoa que apresenta resultados.”
Tem o seu interesse verificar que um dos executantes mais empenhados na aplicação aos Portugueses do diktat da troika, com a enorme violência que é conhecida venha agora dizer que até discordou dessa receita malfadada. É bem o exemplo de não ter vergonha na cara. Quando a dupla Passos e Gaspar se travestiu em Passos e Maria Luís aplicou a nós, os Portugueses, a subida dos impostos, os cortes nas pensões, até aos mais desprotegidos, renegando o contrato com elas assinado e deitando às urtigas a afirmação de que o Estado é pessoa de bem (era), Moedas lá estava acirradamente a implementar o desvario.
Agora, no Parlamento Europeu que o examinou saiu-se com esta mentira, o desavergonhado. Após três horas de questões ao futuro comissário que deverá ficar responsável pela pasta da Investigação, Ciência e Inovação, Carlos Zorrinho, do PS, que é membro efectivo da comissão de Indústria, Investigação e Energia, comentou que Moedas "estava bastante preparado e teve uma prestação claramente positiva". Mas, também disse que a grande questão é saber se Moedas será mais leal às ideais do presidente eleito da CE, Juncker, que fez do investimento uma das suas grandes "bandeiras", ou à linha do Governo português de Passos Coelho.
"Quase imagino o que vai ser o dia-a-dia de Carlos Moedas nos próximos tempos: de manhã receberá um telefonema de Jean-Claude Juncker a dizer «investe, investe, investe»; ao fim da tarde, Passos Coelho, que tem assento no Conselho e não tem feito nada para aumentar o investimento nesta área, vai telefonar a dizer «corta, corta, corta»", zombou Zorrinho, que ainda acrescentou que fica à espera de saber "de que lado estará" o antigo secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro nas suas funções como comissário.

Marisa Matias, do BE e João Ferreira afinaram pelo mesmo diapasão, naturalmente com algumas diferenças não substantivas. Ou seja Moedas está bem preparado para quê? Dispõe de 80 mil milhões até 2020 para apoiar, implementar e desenvolver as políticas de inovação, ciência e Inovação. Ao contrário do que fez enquanto membro do (des)Governo de Passos & Portas, agora na Europa vai gastar o que “desgastou” em Portugal. Será ele capaz de o fazer? Como nos primórdios da televisão neste país triste e desgraçado, se dizia “O programa segue dentro de momentos” e isso representava umas horas de ecrã negro como a noite mais negra, há que esperar pelos resultados do preparado mas desavergonhado Carlos Moedas. Até lá, benza-o a Senhora do Agrela, que não há santa como ela.

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