segunda-feira, 15 de abril de 2013

CRÓNICAS DO ZÉ GIL

Aí vai mais uma estória, ou crónica, do Amigo Zé Gil


ECOS de PÁSCOA


Gil Monteiro*



Os tempos de Páscoa e Pascoela passados avivaram sonhos e realidades. Este ano, foram mais fortes e fizeram refletir. Antes da chegada da alegria, no dia de Aleluia, os dias da Semana Santa foram vividos em Paranhos, na cidade do Porto, e não deixaram de lembrar os cavos córios, regados avinho do Porto, nas festividades dos Lázaros da rua dos Ferreiros de Vila Real ou o benzer dos ramos, pelo Sr. Prior, na igreja de São Martinho ou, ainda, os Compassos nas quintas do Douro (Miguel Torga diria Doiro), na segunda-feira de Páscoa.

Poder receber o cortejo da visita do Senhor Crucificado, em apartamento citadino, tem os seus quês. Foi preciso informar os condóminos, acertar a hora do acontecimento, e enfeitar a entrada do prédio, senha da passagem do Cortejo, no domingo de Pascoela. Felizmente, os verdes do átrio tinham raminhos de alecrim e oliveira, oferecidos por um vizinho, regressado da Régua! Algum alecrim, parte da novidade comovida, foi retido numa jarra!

Não vendo a caldeirinha da água benta, nem ouvindo o som da campainha, senti que o tempo tinha voado para outra galáxia! O beijar da Cruz, limpa por paninho embebido em álcool, de pessoa para pessoa, pelos moradores, congregados no átrio, lembrou o Sr. Prior a dar a Bênção ao Povo de Roalde, já lusco-fusco do Domingo de Páscoa, na varanda granítica da Casa do Peitoril, e, enquanto os crentes regressavam às casas, o santo sacerdote montava a égua a caminho da Queda, ao encontro das casas dos moleiros!

A Páscoa comemora a ressurreição de Cristo. Era o tempo da libertação. O pavor da Semana Santa: com as imagens dos santos tapadas a panos pretos ou roxos, não se podia falar alto, nem as meninas faziam tranças novas, muito menos serem catadas dos piolhos (os inseticidas ainda não tinham chegado ao lugar!); a Mãe, livre da compra das bulas, a cumprir o jejum e abstinência, e mais...; até os bois não iam ao pasto! Só o toque da sineta à Aleluia podia desobrigar!

A vinda do tempo pascal era a revolução nas limpezas gerais da aldeia: as casas eram esfregadas, os caniços e os varais do fumeiro retirados, o forno preparado para cozer o pão e bolas, as roupas iam para a fonte da Tenaria lavar, algumas depois da barrela (!), os colchões das camas, de linho cru, eram lavados e recebiam novo folhelho das espigas de milho... As ruas eram “pavimentadas” a mato rasteiro, roçado nos montes dos donos das testadas das casas.

Nos campos, começavam as vessadas, principiando pelas leiras das encostas, menos encharcadas, e, importante, o fazer a horta, a fim de prover os legumes do ano.

Quando a sineta da capela anunciava a Aleluia, podia ser ouvida a Recoquinha dizer:

– Ó António!? Vai meter as abóboras (pevides ou sementes), à horta, está a está a badalar a sineta!

O Tó aproveitava para meter, na terra fofa e preparada, as sementes das suas cabaceiras. Ninguém as tinha como ele! Vi-as crescer enroladas nas estacas. Quando via as suas cabaças, portadoras de vinho, sorria de orgulho – eram coisas suas!

A Páscoa é a reunião das famílias em festa e nas cerimónias litúrgicas, vividas com muita intensidade. Foi nas Endoenças de São Martinho que apanhei um valente susto:

Recordo, que dormia no colo da Mãe e ser despertado por gritos aflitivos... – Era o encontro de Nossa Senhora com o Filho, carregando a Cruz!







Porto, 10 de abril de 2013



*José Gil Correia Monteiro

Jose.gcmonteiro@gmail.com

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