sábado, 5 de dezembro de 2015

CONTRIBUTOS EXTERNOS

Moçambique: o gás e a riqueza


Por Antunes Ferreira


Moçambique tem potencial para ser um dos maiores produtores mundiais de gás. «As riquezas e as oportunidades são tantas que podem transformar Moçambique num dos países mais ricos do Mundo», afirmou o senhor  Ken McLennan, escocês representante em Moçambique da Wood Group PSN num colóquio do sector petrolífero e gás da Escócia.
A notícia apanhou de calças na mão o Mundo? Não, não apanhou; isto porque já se suspeitava da situação e os rumores já corriam nos bastidores dos especialistas em energia; Porém o caso estava bem guardado no palácio da Ponte Vermelha que é a residência oficial do Presidente de Moçambique. Os olhos gulosos dos tubarões ou dos poderosos dirigentes das grandes multinacionais coincidiam com o afiar dos dentes. Qualquer delas começou a mexer os cordelinhos na ânsia de apanhar a pole position dessa corrida para a meta desejada.
Como é sabido o país continua a ser considerado um dos mais pobres e subdesenvolvidos do mundo. Os países doadores são considerados em Maputo como os “salvadores da Pária” expressão que demonstra bem o que ali se passa em termos económicos e financeiros. As ajudas de entidades oficiais são também uma razão de peso a demonstrar a debilidade do país. Mas se for possível ganhar uns trocos, abençoadas doações
No entretanto, em 2007, o Banco Mundial falou sobre o "ritmo de crescimento económico inflado" de Moçambique e um estudo conjunto do governo e de doadores internacionais afirmou que "Moçambique é geralmente considerado como uma história de sucesso na ajuda humanitária". Também em 2007, o Fundo Monetário Internacional (FMI) disse que "Moçambique é uma história de sucesso na África subsaariana." 
São conhecidas as estórias das “histórias de sucesso” que normalmente provêem dos interessados em aproveitar o que melhor têm os países assim qualificados. Porém o reverso da moeda caiu um tanto desanimador. O próprio Banco Mundial acolitado pela UNICEF, utilizaram o termo “paradoxo” ao descreverem o aumento  da desnutrição infantil crónica perante o crescimento médio do PIB moçambicano. Entre 1994 e 2006, ele atingiu aproximadamente um   crescimento médio do foi de aproximadamente 8% ao ano, e no entanto, o país continua paupérrimo. Num inquérito que decorreu em 2006, três quartos dos moçambicanos afirmaram que nos últimos cinco anos a sua situação económica estagnou ou tornou-se pior.
É este país, antiga colónia portuguesa, que parece acordar do pesadelo da pobreza. E ninguém conhece alguém que enriqueça a trabalhar… Mas isto leva o seu tempo e os moçambicanos estão fartos do “ouvi dizer” e de promessas. As terríveis inundações que mais ou menos regularmente dão cabo das terras cultivadas, são mais uma bandarilha cravada pelo desalento. Recorde-se que a agricultura é a principal produção do terciário. Estão “habituados” a que lhes prometam que as catástrofes serão erradicadas e que a guerra interna vai acabar; mas, quando?
No mencionado colóquio sobre petróleo e gás, o escocês McLennan ainda sublinhou que «A Escócia tem um largo know how e não pode perder a oportunidade de marcar presença em Moçambique, onde as reservas de gás são astronómicas e estão ainda por ser exploradas», e ainda frisou que «o Governo de Moçambique tem o cuidado de defenderr um papel importante por parte das empresas e populações locais».

Os números avançados no colóquio foram impressionantes: as maiores empresas mundiais petrolíferas e de extracção de gás já têm planos para investir o equivalente a 120 mil milhões de euros na prospecção de novas reservas, que se acredita terem a capacidade de 170 triliões de metros cúbicos de gás, especialmente na bacia do rio Rovuma. Quando se começar a extrair e comercializar o gás, o mercado da energia verá surgir um verdadeiro terramoto.
Umas perguntas se perfilam: serão os moçambicanos que vão gozar desse imenso tesouro? Será que se está perante a caverna que Ali Babá descobriu? Será que o “abre-te Sésamo” exibirá as riquezas enormes do país? Por enquanto tudo faz pensar que se trata de um sonho cor-de-rosa que cheira a gás. Porém as finanças e a economia não vivem de sonhos, vivem (e convivem com os grandes detentores do dinheiro – que não tem cheiro.

Não acredito em profetas ou profetizas nem sequer naquela de Delfos que tirava dos fumos do enxofre que por ali abundava. Quanto a previsões lembro-me sempre do João Pinto do Futebol Clube do Porto: «Previsões? Só quando terminar o jogo…» Ainda que tenha havido um filme português com o título de «Sonhar é fácil» realizado pelo falecido Perdigão Queiroga em 1957, tudo indica neste caso do gás em Moçambique que mau será o sonho se se tornar em pesadelo…

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