segunda-feira, 2 de março de 2015

CONTRIBUTOS EXTERNOS

ÁGUA DE COCO

Glorioso Santo



Antunes Ferreira (*)

Em Goa não há católicos não praticantes. Aqui o catolicismo é “radical”: ou se é católico de missa dominical ou mesmo quotidiana, ou não se é. Não há meios-termos como no maniqueísmo entre o branco e o preto: o cinzento, seja mais carregado ou menos não existe. E nas missas (quase) toda a gente comunga. Naturalmente não me refiro aos hindus, uma maioria destacada. De resto os católicos – embora firmes - são cada vez menos: nem 30% chegam a ser. A zona de Salcete, de onde a Raquel é natural, é onde os católicos predominam – ainda. Como me disse o padre Mouzinho daqui a pouco só restarão as igrejas… 
                                                                                    
Que aqui não faltam: catedrais, igrejas, capelas, nichos votivos, cruzeiros e similares. Quando se vai de Pangim a Margão (a segunda cidade) são tantos que já deixei de os contar. Porém a maior parte do estado é hinduísta. O hinduísmo não é uma religião, é uma forma de vida; nele existem templos diversos dedicados aos deuses que são em número para dar e vender… Só para dar um exemplo, quando há anos fui de Bengalore a Misore, pelo caminho encontrei uma multidão com serpentes vivas nas mãos. Iam ao templo da deusa da serpente cujo nome não retive.

Em Goa os templos católicos convivem com os hindus e as mesquitas e as sinagogas. Ainda que os muçulmanos não sejam do agrado dos outros. O Francis, chofer de táxi, disse-me que um dia destes Goa passará a chamar-se Burquistão. De burca, naturalmente… Aliás para ele e para mais gente o tempo dos Portugueses é que era porreiro… Os muslimes invadiram a terra, ou vão-no fazendo e já são em número considerável. São facilmente reconhecidos, eles de barbas grandes, elas vestidas normalmente de negro e somente com os olhos numa fresta que não deixa ver mais nada do que eles. O Aycha condutor de riquexó informou-me que até nesse meio de transporte muito utilizado e barato eles estão a tirar o lugar aos goeses e já dominam o mecado, de Meca, obviamente. O mecado e o mercado.

Porém volte-se ao catolicismo. Há igrejas, capelas e até a Sé Catedral em Velha Goa esgotam os nomes sagrados, desde o Coração de Jesus até à Santíssima Trindade, passando por Santa Inês, São Pedro, São Paulo, Nossa de Fátima, diversas outras Nossa Senhoras, Sagrada Família, naturalmente São Francisco Xavier que continua a reinar sem contestação alguma. Tudo indica que mais dia, menos dia, haverá um templo com o nome do Santo padre José Vaz, recentemente canonizado. Curioso. Mas para além do apóstolo das Índias quem pontifica é o São Sebastião que se afigura ter caído na graça dos católicos goeses. Ele é a igreja, ele é a capela, ele é omnipresente. Nas Fontainhas (a “Alfama” de Pangim onde reina a arquitectura portuguesa antiga) há uma capela dedicada ao Santo junto da qual está a casa onde morou a Raquel.

Já estava convencido da importância do santo carregado de flechas (enterradas no tronco nu dele) mas acabo de confirmar o que pensava. Vindo de Vernã para Pangim no táxi do já citado Francis passei por mais uma capela. O que não é motivo de espanto…, bem pelo contrário. Como atrás referi elas são como os cogumelos, salvo seja, só que não são de geração espontânea. Quem as edificou foram os nossos antepassados. E nada de enganos. Homens são homens, esporos são… esporos. Já vejo no horizonte o Vaticano agitar-se e brandir a excomunhão; porém Roma não se safa, já plantei o salvo seja que espero como boia de salvação ou bula redentora d  Mas desta feita o templo tem o nome bem destacado na frontaria:  Chapel of the Glorious Saint Sebastian.


Para que não haja dúvidas ou maledicências que há por este Mundo fora, o letreiro acaba com elas. Ou seja neste caso o santo é reconhecidamente glorioso.



(*) que continua por férias atribuladas por Goa

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