quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

EFEMÉRIDES



Neste dia,







em 1802, nasce Victor Hugo, escritor francês

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em 1929, morre Augusto Gil, advogado e poeta português


Balada da neve


Batem leve, levemente, 
como quem chama por mim. 
Será chuva? Será gente? 
Gente não é, certamente 
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania: 
mas há pouco, há poucochinho, 
nem uma agulha bulia 
na quieta melancolia 
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente, 
com tão estranha leveza, 
que mal se ouve, mal se sente? 
Não é chuva, nem é gente, 
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía 
do azul cinzento do céu, 
branca e leve, branca e fria... 
- Há quanto tempo a não via! 
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça. 
Pôs tudo da cor do linho. 
Passa gente e, quando passa, 
os passos imprime e traça 
na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais 
da pobre gente que avança, 
e noto, por entre os mais, 
os traços miniaturais 
duns pezitos de criança...

E descalcinhos, doridos... 
a neve deixa inda vê-los, 
primeiro, bem definidos, 
depois, em sulcos compridos, 
porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador 
sofra tormentos, enfim! 
Mas as crianças, Senhor, 
porque lhes dais tanta dor?!... 
Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza, 
uma funda turbação 
entra em mim, fica em mim presa. 
Cai neve na Natureza 
- e cai no meu coração.


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em 2014, morre Paco de Lucía, guitarrista de flamenco espanhol

2 comentários:

Janita disse...

É ao som da guitarra de Paquito, que relembro este bela Balada da Neve, que conheço e sei de cor desde criança. Curiosamente, ainda ontem falei nela com a minha filha e meu neto mais velho, sobre acontecimentos a ela ligados. Coisas que ninguém mais lembrava senão eu.
Quando o meu neto era pequeno, e estava comigo, dizia-lhe poemas quase todos os dias, todos de Augusto Gil. Este era um deles. Quando chegava a altura de declamar: "Mas as crianças, Senhor, porque lhes dás tanta dor, porque padecem assim?" Ficava com a voz embargada de emoção e ao fim de uma, duas, três vezes, o garoto já conhecia essa alteração na minha voz, embora a não compreendesse. Então, quando ouvia a palavra "Senhor" já olhava para mim e desatava a rir. Enfim, ontem foi um dia que deu para tudo. Essa é a vantagem de fazer as celebrações em casa...

O belo romance de Victor Hugo, li e vi o filme, ainda com Jean Gabin.
Sinceramente, já não sei se esses meus tempos dedicados à boa leitura e a ver bons filmes, não seriam bem melhores do que estes em que me coloco frente ao monitor do PC a teclar como se não houvesse amanhã...

Beijinhos.

(escrevo comentários mais longos do que os textos que coloco no meu blog...isto, só eu... )

500 disse...

Li Os Miseráveis na adolescência e voltei a lê-lo anos mais tarde e recordo ter visto um (exactamente com o Jean Gabin) dos vários filmes que da obra foram feitos, e do Hugo também li Nossa Senhora de Paris e O Último Dia de Um Condenado, livros que andam por aí.
Este poema do Augusto Gil, julgo que toda a gente conhece.
O Paco, filho da portuguesa Luzia (creio que alentejana, não juro), era um artista na guitarra e esta obra é bem bonita.
Ter tido uma (pelo menos) avó que nos mimava é uma eterna recordação.
Pelo que entendo, houve uma bela celebração...
É verdade, hoje expandiu-se!
Bjis.