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quarta-feira, 31 de julho de 2013

O AZUL-CANÁRIO NA ZORRA

Mais um contributo do blogue Azul-Canário




Os gatos e a cidade 2

Três milhões de degraus
por amor aos gatos

A causa felina obriga-a a um duplo desce-sobe diário das Escadas do Barredo, desde casa até à borda do Douro. Contas por alto, a paixão de vinte anos de Arlete Gomes pelos gatos, medida em degraus, daria para a imaginar do tamanho de três milhões: íngremes, dos mais doridos que nas cidades haverá no mundo. 

Fotografia e texto
Augusto Baptista

                                                                     


                                                                     Arlete Marques Gomes 

Ao aproximar-se a hora, começam a rondar-lhe a casa. São dois. Impacientes, atentos ao mínimo sinal, sobem, descem, sem se afastarem. Às vezes deitam-se, a olhar a soleira. Um desiste, vai-se. O outro, paciente, espera. Aprendizado de anos, sabe que não tardará. A confirmar as expectativas, a porta abre-se, ela sai: devagar, amparada na canadiana, sacos de plástico com comida a atrapalhar as voltas da chave.
Sem pressa, gato e Leta, como na Ribeira do Porto é conhecida Arlete Gomes, descem o íngreme escadório do Barredo. Dobrada a esquina ao fundo, face ao nicho do Senhor da Boa Fortuna, afogam-se em novo sobressalto de degraus.
Vencida em poucos passos a Rua do Barredo, outrora da Mancebia, chão de “mulheres que faziam pelos homens”,  submergem nas sombras de um novo lanço de granito em socalcos. Neste troço apertado, as casas quase se tocam nas alturas, se ouvirão os segredos, confidências, ais de amor dos vizinhos, uns dos outros.
De repente, rente ao piso, na fresta escura de um portal metálico, é largado o primeiro contributo. Dentro, sem se darem a ver, dois gatitos e a mãe, me diz Leta, tarrincam o granulado. Nesse instante – tortuosos, os caminhos  da razão – me ocorre o relato de Wilfred Burchett quando, em tempo de guerrilha no Vietname, mão furtiva, solidária, lhe garantia mantimento.
No sopé deste trajecto se abre a Rua da Lada numa espécie de terreiro: bastidores do Douro turístico, roteiro de melancolias e misérias, retiro de cigarro para o pessoal dos restaurantes. No ar, um cheiro a fritos, a comida; no alto, a esvoaçar, roupa de muitas cores dependurada.
Logo à esquerda, num patamar, Leta se acerca de um buraco na parede. No pavimento, como toalha de piquenique, estende uma imaculada folha de plástico, desvenda o farnel. Numa vasilha opalina, verte água. Límpida. Da parede, atraídos pela refeição, pelo doce das palavras, vão saindo: bem tratados, sem pressa nem atropelo, civilizadamente, vão saindo os candidatos ao repasto. Hoje falta um, os conta Leta.
Neste ponto do trajecto, a assistência é demorada. Tempo de relação com a vizinhança, combina de entreajudas, conversa de gatos. “Faço isto há vinte anos, todos os dias, pelo fim da tarde. Dou-lhes latas, secos, granulado, o que o médico mais aconselha. É uma despesa grande. Comida. Castração: 40 euros cada gata. Vou-me remediando, sem pedir nada a ninguém.” Mas porquê esta cruzada, tanta caseira? “Dediquei-me. E, sinceramente, com os gatos, ao contrário do ser humano, não tenho decepções.” E as pessoas? “Entendem. Admiram-me.”
De novo, pés a caminho pela Rua dos Canastreiros, entre arcadas sombrias sob o soalho do casario, desagua na Praça da Ribeira. Tarde de Maio quente, o largo apinha-se de gente a beber nas esplanadas, guarda-sóis ainda abertos. E há mirones, automóveis, vendedores, música. O costumeiro, o ruidoso frenesim. Manclitante, Leta, no reboliço. Para trás, os gatos, que nenhum arrisca a confusão.
 No Cais da Estiva, logo ali, desce escadas, rumo ao fosso empedrado. E por aquele chão cabisbaixo alonga a caminhada, até à frente, ao dobrar do muro, quase. Justo ao finar de uma esplanada que nesse correr há, se queda. Monta arraiais junto à mesa derradeira, às cadeiras, a um bojudo ferro de amarração de cordame náutico. E a vejo retirar apetrechos, como atrás fizera, afadigar-se em mudas de água.
Estranho procedimento, que nas cercanias, perscrutei, nem sombra de felina presença.
De repente, rente ao muro de pedra velha, por uma fenda inesperada, invisível, mete a mão. E fala. Entre palavras carinhosas que verte para o fundo do buraco, confiante, mete a mão, solta um punhado de grânulos secos. Outro, outro. No fundo, no negrume da fissura, movimentos adivinhados: um gato! “É uma gata”, precisa Leta. Conta a história: “Descobri-a, quando era pequenina. Cresceu. Ficou cheia, consegui tirá-la, levá-la para castrar. Quando a trouxe, tornou a esconder-se aqui.”
Aqui, chão turístico a fervilhar por cima, pulsam dois olhos por baixo, se acolhe  nas trevas uma vida, uma parte de nós e da cidade.
“À noite ainda tenho de voltar ao Cais” – lamenta Leta. “Há uma que só aparece e vem ter comigo a essa hora. Não sei onde se esconde.”
De regresso, esta mulher franzina, reformada, que veste luto duas vezes, pelo homem, pelo filho, insinua-se pela arcada do Postigo do Carvão, que a espera um peludo comensal, atravessa o Cais da Ribeira, esgueira-se entre as ruelas fundas do Barredo, penosa ascensão até casa, sempre a subir até casa, cem degraus que doem.
Chega extenuada, gatos atrás, dois ou três. Impertinentes, querem entrar. “Não posso. Já tenho uma, Joaninha.” 

                               O trajecto solidário


                                                                  Saída

                                                                                     Escadas do Barredo

                                                                                   Travessa do Barredo



                                                                                      Primeira assistência



                                                                                                Rua da Lada





                                                                                   Rua dos Canastreiros

                                                                                          Praça da Ribeira

                                           Cais da Estiva - fosso

 

                                                                                         A gata escondida

          Cais da Estiva- regresso

                                                                                       Postigo do Carvão



                                                Praça da Ribeira

                                                                                   Rua dos Canastreiros

                                                                     Travessa do Barredo



                  Escadas do Barredo

                                                                                                      Chegada


quarta-feira, 24 de julho de 2013

PILHAGENS

Um sonho fatal

Com algum atrevimento face à idade do interlocutor, perguntei o que andava ele a fazer na Rotunda da Boavista, feito menino a espantar transeuntes, arco a cantar nas pedras do passeio. A resposta revelou história com contornos demorados. E um sonho fatal. Ambos com pressa, marcámos encontro para depois. 1

Texto e fotografia
Augusto Baptista



O Vitor, Vitor Manuel Pinto Matos, nasceu no Porto em 1932, tem 80 anos. Cobrador e fiscal dos STCP, aí trabalhou até à reforma. Antes conheceu outros empregos: sapateiro aos 12, litografia aos 15, fábrica de borrachas depois. Neste ínterim, andou na tropa. Casou, teve filhos.
E a vida, a sua vida, seria episódio manso, não fora um acontecimento que há um ano lhe sobressaltou os dias, um sonho fatal, como ele diz. História que a seu modo conta e eu, a meu jeito, escrevo:

Nasci no Hospital de Santo António, fui criado nas Escadas dos Guindais, aqui no Porto. Aos 7 anos os meus avós e a minha mãe foram morar para Gaia e eu entrei na escola.
Por ter passado no exame da 1.ª classe, o meu avô disse à minha avó, parece que o estou a ver, “Vou comprar um arco para o pequeno”. Passei logo a ser dono de um arco, mesmo sem ainda o ter: aquilo que o meu avô prometia, fazia.
Na altura, o arco seria uma coisa cara, que eu gostava de ter um, não tinha. O meu avô deve ter feito sacrifício para mo dar. Ele era desses que andavam a carregar na Ribeira fardos de bacalhau, dos navios para os carros de bois. Vi-o uma única vez, nunca mais lá tornei. Tive pena de ver o meu avô naquele serviço.
Passado pouco tempo ele deu-me o arco. Daqueles que cantam na rua. Até aos 12 anos o arco passou a ser a minha perdição. Com essa idade arranjei emprego, fui trabalhar de sapateiro para o Largo dos Aviadores, em Gaia. Já não podia andar de arco. E, desde aí, nunca mais lhe peguei.

 

O ano passado, em Junho, o dia não me recordo, tive um sonho. Sonhei que andava de arco por aí a correr. O meu arquinho! Foi um sonho fatal. De manhã acordei e disse para a minha mulher, Vais ter paciência, vou comprar um arco. E ela, que não fazia ideia do que isso era, “Um arco?!” 


Comecei a tentar saber onde o havia de arranjar. Como moro perto da Rua da Senhora do Porto, encontrei um amigo, quase vizinho, perguntei-lhe. E ele, “Ó pá, atravessas a rua de Monte dos Burgos, na esquina tem um garageiro. Vai aí.“ Nós chamamos garageiro, não sei se este será o nome próprio, a uma casa que vende e ajeita bicicletas.
Cheguei lá, aparece-me um rapaz com uma simpatia fantástica e eu, Ó amigo, vai ficar zangado, mas olhe, sonhei. Contei-lhe a história. E ele, “Já sei o que quer, espere.” Passados minutos, vem com dois aros de bicicleta, um mais largo, outro mais estreito. Aquilo nem precisa de gancheta, até com um pau se conduz. E eu, Se calhar não vou ter dinheiro. Ele ficou a olhar, e diz-me “Isso é lixo!”
Aquele aro era bom, não tinha outro, mas – também a perguntar – resolvi descobrir um melhor. “Ó pá, na Rua do Almada é capaz de ter.” Andei para baixo, para cima e, quase ao princípio, no n.º 155, encontrei uma casa, uma casa, posso dizer o nome?, Rocha & Leitão.
Apareceu-me um rapaz  muito delicado, o Helder, depois é que soube o nome, que me prometeu arranjar. Isto em Junho, só que se passou Julho, Agosto, Setembro, Outubro... Passaram-se os 4 meses, depois tive uma alegria. No mês em que fazia anos (aproveito para dizer que 7 de Outubro é o dia em que abriam as escolas antigamente), o rapaz telefonou-me “Ó senhor Vitor, o homem prometeu-me que para a semana vem o arco.”
Tinha lá um sinal, que eu dei-lhe cinco euros de sinal, cheguei ao fim e ele veio com dois arcos. E eu disse, Ó pá, isso é muito. E ele, “Um é de graça pelo tempo que isto demorou, o outro são dez euros. Deixou cinco, paga cinco.“
Hoje tenho esses dois arcos e, em casa, tenho ainda os aros de bicicleta, tenho-os lá, não os deito fora. Tenho dois arcos e dois aros.
Entretanto, um vizinho meu, reformado da GNR, Narciso, bom rapaz, viu o meu entusiasmo, fez-me uma gancheta. Depois é que me fez esta, melhor para o paralelo. No paralelo, mesmo devagarinho, o arco salta muito da gancheta para fora, custa mais.
O arco com que ando agora é igual ao que eu tive em pequenino, o toque é tal e qual. Chamam a isto verguinha. A gancheta é feita de arame de ferro. É forte mesmo. O arco vai ti ti ti ti. Faz-me lembrar, na Páscoa, as campainhas de Nosso Senhor.


Sempre que posso dou a minha volta. Tem-me feito muito bem, nunca tive problemas com as pernas, nem com nada. As pernas sinto-as mais rijas, mais pernas. Tenho dias em que não posso andar. Se for com a mulher a qualquer lado, fazer umas compras ou assim, não levo o arco. Por uma questão de depois a ter de ajudar.
Ando com o arco aqui no Porto para todo o lado. Se hei-de ir sem nada, vou com o arquito, com ele no chão. E sempre sozinho. Gostava, sinceramente, de andar com mais gente. Mas ninguém quer vir comigo. O meu filho mais velho diz--me, “Ó pai, vai ao Conde Ferreira!” O meu irmão, “Vai ao Magalhães de Lemos, pode ser que eles te dêem remédio para isso.”




Quando vou na rua, as pessoas ficam admiradas. Os da minha idade dizem-me, “Ó amigo, que saudades”. Às vezes paro, conto que tive um sonho, conto esta história. Aqueles que já têm conhecimento disto dizem, “Deixe-me dar uma volta”,Ó senhor, está aqui o arco, mas não vá para longe, que depois tenho de ir a correr atrás de si. O gajo pode fazer como o outro das fotografias, dá o kodak e, enquanto vai para ser fotografado, olha para trás e já lá não está ninguém.
Para andar de arco é preciso saber. Dá-se um lanço com a mão esquerda e a outra empurra. A técnica é talvez na mão, suponho eu. Se o arco entortar, tento pô-lo no outro lado, deve ser isso. Sinceramente, não posso dizer.
A minha ideia é andar com o arco até poder. Enquanto tiver força e vontade, ando sempre. E quando um dia me apagar, antes disso digo à mulher, Pega neste arquinho, só um, mete-o dentro do caixão. Para ir comigo. É o meu sonho, é uma das coisas que hei-de pedir. Outra é que quero ser cremado. Da maneira como isto está, vejo muita falta de respeito, as campas a ganharem ervas. Queimadinho, estou arrumado. E ao arco depois lá saberão o que lhe hão-de fazer, que eu não sei. 3



Notas
1. 16 de Julho 2013: a data deste encontro.
2. Sociedade de Transportes Colectivos do Porto.
3. Insistente, o Vitor pediu-me que nesta prosa evocasse os seus amigos de menino, velhos companheiros de arco e gancheta, que gostaria de reencontrar. O Serafim Manteiga. O Belmiro Tavares, “um rapaz que tinha uma voz fantástica”. O António, “nós chamávamos-lhe Tesinho, porque ele sofria das costas, andava sempre muito direito…” E mais dois ou três, que os anos lhe varreram o nome. Todos de Gaia, que, nas Escadas dos Guindais, Vitor não se lembra de ninguém.




Nota do postador - Este delicioso texto e fotos foram gamadas, com a sua permissão, ao autor, que pontifica no blogue 'azul-canário' (é só clicar aqui ao lado), que podem e devem visitar.